A decisão por viver o envelhecimento na estrada, morando em um Motorhome nunca foi um sonho para nós. Costumo dizer que essa decisão foi se desenhando aos poucos, quando repensamos a vida, por ocasião da pandemia, que marcou a todos nós. Quando planejamos trocar o dia a dia na casa fixa pela casinha sobre rodas, tudo ocorreu na prática, com base na realidade daquele momento. No entanto, já nas primeiras moradas, começamos a ouvir que a nossa vida viajante é o sonho de muita gente. Continuamos a ouvir isso, quase todo dia. Quando dizemos que vivemos pelas estradas, a expressão mais frequentemente ouvida é que esse é um sonho. “Nossa, esse é o meu sonho”! “Viver assim é o sonho do meu marido”! “Pretendo viver esse sonho quando me aposentar”! “Que vida de sonho”! Estas são falas frequentes no nosso cotidiano, o que me provoca reflexão sobre o sonho dessas pessoas. Que sonho é esse? Seria o sonho de viver em eternas férias? Talvez nossa vida nômade dê essa ideia, porém, não é assim.

No dia a dia estamos em casa e não em férias constantes. Seria o sonho de sair de onde estão? De deixar para trás um emprego opressor e sem graça? Ou seria fugir da própria vida, como se as angústias, as tristezas ficassem no lugar onde se vive e não seguissem junto, dentro de nós? Quem sabe o fato de não ter endereço fixo passe a ideia de liberdade, de viver sem amarras, de mudar de lugar quando o ambiente não está confortável? Não tenho resposta para nenhuma destas indagações, fico ouvindo, repetidamente, sonho, sonho, sonho. Não sei se toda a gente com que cruzamos e conversamos sobre esse tal sonho, o transformaram em realidade. E em duas ocasiões esse papo com pessoas interessadas em viverem esse seu sonho transformaram-se em planos reais. Dois casais, de diferentes lugares, que conhecemos em encontros fortuitos, colocaram seu sonho em planos e os planos em prática. Já os encontramos vivendo seus sonhos na estrada, morando nos seus motorhomes. Assim, percebo que vivemos o sonho de muitas pessoas e isso me soa um pouco estranho. Se considerarmos sonho como algo utópico, nossa vida é elevada a um patamar que desconheço. Nosso cotidiano é real. Dormimos, caminhamos, cozinhamos, fazemos nossa ginástica, vemos filme e futebol pela internet, pagamos boletos, saímos com amigos, visitamos nossos netos, brigamos e fazemos as pazes. Quem acha que a vida nômade é um sonho, que fique com esse sonho! Cada um tem o seu…Se já vivo o sonho de muita gente, qual seria o meu?













