Sou uma perguntadora. Muitas coisas me encantam, me intrigam e me levam a perguntas que, quase sempre, ficam sem resposta.
Há algum tempo, uma pequena casa chama minha atenção em um dos meus trajetos pela cidade. Passo por ela e penso: um dia ainda vou escrever sobre essa casa.
É de madeira comum, sem pintura, aparentemente de um único cômodo. Mas há nela uma delicadeza difícil de explicar.
O pátio é muito limpo e cuidado. Do lado de fora, uma mesa, algumas cadeiras e muitos espelhos, inteiros ou quebrados, provavelmente reaproveitados. Fragmentos que ali ganharam outro lugar.
Mais adiante, uma pequena construção que imagino ser um banheiro. Nunca vi quem mora ali. Mas, outro dia, vi uma roupa — talvez uma toalha — pendurada no arame. E pensei:
Tem gente aqui!
Como será a vida de quem mora ali? O que cabe naquele único cômodo? De quanto espaço precisamos para viver?
Inevitavelmente, olho para minha própria casa. Grande até demais para quem hoje vive nela.
Temos até um cômodo que, em tom de brincadeira, chamamos de “quarto do Miles”,cachorro da família. Ele nem dorme lá, mas ali ficam sua ração, alguns brinquedos e objetos dele.
A pequena casa também me leva a outro tempo, quando fazia visitas a famílias em comunidades da periferia de Porto Alegre. Foi um dos meus primeiros contatos com a pobreza de perto. Íamos em duas ou três profissionais e, algumas vezes, as mulheres nos recebiam do lado de fora:
— Vou receber vocês aqui porque lá dentro não tem lugar para todas. Não tem cadeira.
Aquilo me impactava profundamente. Hoje compreendo melhor aquela realidade. E também compreendo que há uma enorme diferença entre escolher viver com pouco e só poder viver com pouco.
Talvez por isso aquela casinha me provoque tanto.
Observo pelas ruas, cidades e vejo casas enormes, antigas residências incorporadas a novos edifícios, casas sem eira nem beira, casas de praia fechadas durante quase todo o ano, casas na serra esperando o inverno, grandes casas habitadas por uma única pessoa.
E, ao mesmo tempo, pessoas sem casa. Lembro então de uma frase que já encontrei escrita em muros:
“Nenhuma casa sem pessoas. Nenhuma pessoa sem casa.”
Há ainda outra casa em meus trajetos. Há mais de cinco anos acompanho sua história silenciosamente. Uma boa casa de alvenaria, numa esquina do Menino Deus.
Quando comecei a passar por ali, havia gente morando nela. Um dia, as pessoas foram embora. A casa ficou. E eu continuei passando.
Primeiro desapareceu o portão de ferro. Depois as grades, as janelas, as portas. Aos poucos, a casa foi sendo despida. Hoje resta quase apenas sua estrutura.
E volto a pensar na pequena casa de madeira: o pátio limpo, a mesa, as cadeiras, os pedaços de espelho e aquela toalha no arame dizendo silenciosamente:
– Tem gente aqui! E a casa acaba refletindo quem passa por ela;
Do outro lado, uma casa sólida que ficou sem gente e, pouco a pouco, deixou também de parecer uma casa. “Nenhuma casa sem gente. Nenhuma gente sem casa.”
E sigo dirigindo. Sem respostas. Apenas olhando as casas e pensando nas pessoas.
*Grace Gomes é psicóloga, trabalha como psicoterapeuta e facilitadora de Biodança.
Escreve sobre situações da vida cotidiana e algumas experiências profissionais e pessoais.










