
As férias de janeiro eram sagradas. Na maioria das vezes, passava muitas delas em Caxambu, na casa de meus avós maternos. Eram férias longas, esticadas pelo tempo e pelo prazer de encontrar boa parte da família. Além dos adultos, convivíamos primos e primas que estavam na mesma elasticidade das idades. Era um grupo enorme e com muita energia para gastar.
Adorávamos ficar conversando na varanda da casa. Ali o tempo passava a galope e íamos na garupa, apreciando as paisagens e as imagens, hoje gravadas na memória. As discussões corriam soltas. Trocávamos experiências, aprendíamos com as diferenças e todas histórias tinham a sua graça ou eram engraçadas. Éramos crianças, adolescentes e jovens repartindo a vida em fatias enormes. Cada momento era delicioso e vinha recheado de carinho mútuo e coberto de muito humor e diversão.
Ali ficávamos até quando alguém vindo da cozinha avisava: “o café está na mesa”. Disputávamos velocidade e espaço, pois quem chegava na frente escolhia o lugar. Sentávamos; sempre havia lugar para todos. Cadeiras e banquinhos apareciam de todos os cômodos para acomodar todo mundo. Os adultos, muitas vezes, nos acompanhavam e partilhávamos os quitutes e as experiências. Meu avô Antônio tinha o seu lugar à mesa e minha avó comandava os bolinhos e as quitandas, o que era sólido ou líquido sobre a mesa. Tínhamos uma mesa farta e um farto prazer de estar ali, alimentando o corpo e a alma; provando as delícias feitas pelas mãos mágicas de minha avó Maria.

Bastava uma risada para todos se encherem de curiosidade e compartilhar do engraçado. Muitas “bobeiras” de adolescentes tomavam corpo e sobreviviam a várias refeições. Davam-se asas para a imaginação e o que parecia nada ganhava vida e nomes e gerava histórias, certezas e dúvidas. Era a ponta do novelo encontrada. E a linha da criatividade se desenrolava com ligeireza e satisfação.
Nada escapava. Todos se incluíam em volta da mesa. Evitavam-se os excessos para que a “brincadeira” pudesse continuar, assim como a vida, assim como os dias. E, assim, crescíamos cheios de alegrias, relacionando-nos em harmonia com idades e pessoas diferentes, fazendo o comum se tornar diferente e atrativo.
Da mesa para a varanda era um pulo. Defendiam-se lugares e aconchegavam-se todos, um a um, pouco a pouco. A vida continuava, do jeito menino, do jeito criança, do jeito gostoso. Da varanda, olhávamos as ruas e víamos o mundo. O mesmo mundo que tínhamos dentro de nós quando as férias chegavam.
Antonio Trotta – Jornalista, escritor e poeta
@atrottamg














Tenho muitas e ótimas lembranças. Uma saudade que ronda a mente e o coração de tempos em tempos… Janeiro e Fevereiro era destino certo para minha alegria e de meus irmãos… Encontro marcado com os primos e amigas de sítio vizinho, a festa era nossa, subindo em árvores, correndo no meio do pasto entre os animais, atravessava o riozinho sem nenhuma preocupação. Cheiro de pão quentinho saindo do forno a lenha, bolos e bolachas estes não podia faltar. Longas conversas com meu avô Mentore, sempre tinha uma sabedoria em suas palavras. Um tempo que deixou saudades e muito aprendizado… Um tempo que repetiria com toda certeza. Hoje pratico estas experiência com meus netos e vou criando memórias afetivas…um legado pra vida.
Memórias afetivas. Aqui vc resume e condensa todo carinho e aventura desse período. Marcou que viveu e teve avós para tudo isso. Valeu.
Não tive avós vivos, mas passei minhas férias sempre com meus pais, e quando casei levei meus filhos sempre para casa deles, meus filhos amavam muito os avós e adoravam viajar com eles também.
Pois é. Curtiu os pais e deu avós aos seus filhos. Muito legal. Memórias afetivas que marcam para sempre.
Me emocionei!!! Era exatamente assim. ❤️
Memórias afetivas que marcam para sempre. Grato.
Que lindas lembranças!
Como morava em São Paulo, capital, férias eram passeios nos Parques, ou viagem para casa de tios no interior. Sempre uma festa! Brincadeiras, sorvetes, quitudes e traquinices! Mas confesso que voltar às aulas era sempre uma alegria! Encontrar as amiguinhas e trocar histórias das férias!
Uma boa lembrança. Tios e tias também fazem parte dessas férias. Que bom que curtiu o interior.
Semelhante atraí semelhante. Quantas afinidades da infância. Minha infância foi exatamente como a sua. Íamos, eu e meus irmãos para a casa dos meus avós maternos… Tínhamos que atravessar um rio de canoa e como era arriscado. Mas o meu avô era muito hábil no remo… Meu avô cultiva roça com milho, arroz e as melancias, ah as melancias que ele guardava embaixo da cama para ficarem fresquinhas… A casa era de pau a pique com chão batido e não havia eletricidade. Era o famoso lampião e lamparina. Minha avó e o formo de barro, oh, é memorável. Eu adorava o momento de colocar aqueles quitutes pra assar em folha de bananeira com uma pá de cabo gigante… As chegadas de folias de reis, as festas de São Sebastião, e juninas com muitas bandeirinhas no quintal. Meu avô se vestia de palhaço na Folia de Reis. Era realmente festivo, alegrias intensas, risos e histórias. Meu avô era um contador de histórias excepcional. Minha avó pilotava aquele fogão a lenha com maestria e dedicação e servia aqueles banquetes, não numa mesa, mas em pratos esmaltados e a gente se sentava em grandes bancos de madeira que meu avô mesmo fazia… Foi uma infância memorável… Que saudade! Gratidão vitalícia, Trotta por nos remeter a esses tempos de glória e alegrias.
Realmente sua infância foi uma linda e longa de aventura e festas. Quantos aprendizados nesse período? Quantos ensinamentos e trocas de experiências. São marcas profundas e vivas na memória.
E com certeza na mesa farta de iguarias não faltava o cardápio de doces de múltiplos sabores como figo, laranja, arroz doce, abóbora e goiabada cascão. Ah, todos servidos com queijo fresco exceto o arroz doce.
E a ordem era provar de todos.
Verdade. Sempre muitos doce deliciosos feitos pela minha vó Maria. Doceira de mão cheia. Sabia agradar pela boca.
Foi na casa da vovó que passei parte da minha infância. Lá, realmente, era um pedaço do céu na terra. Junto com meus irmãos e primos, a gente tinha um paraíso de quintal para brincar!
Me lembro com saudades das delícias que preparavam na cozinha. O grande fogão a lenha, fogo sempre aceso, bolo de fuba no forno, biscoitos, bolachas de nata… Humm, chega dar água na boca! À tarde, todos na sala, era hora dos desenhos na televisão. Era um adulto que ligava e desligava, nenhuma criança colocava a mão.
Quando a noite chegava, íamos para a cozinha ouvir histórias em volta do fogão. Deitávamos cedo e acordávamos cedo também. Tinha leite fresco de cabra e das vacas, ainda quente e pedra branca. Só quem viveu na roça sabe das delícias de beber o leite tirado na hora.
Casa da vovó Maria, que saudades eu carrego!
Adilson Junior
AIL, cadeira 18 do patrono, Geraldino Medeiros.
Excelente texto e histórias de dar água na boca. Momentos ímpares e cheio de aprendizados e ensinamentos que marcam por toda vida. Grato.
Caro confrade, Trotta. Eu quem sou grato, sua coluna foi para mim, uma nave. Ela me levou de volta naqueles bons tempos, na casa de minha avó materna, Dona Maria. Quantas saudades!
Grato.
Janeiro sempre chega com cheiro de sol quente e tempo suspenso.
Nas minhas férias de infância, o mundo parecia maior do que eu…ruas longas, tardes intermináveis, risos transbordantes sem promessa de fim. Havia a alegria simples…pés descalços, o gosto doce das frutas roubadas, a liberdade inocente de não saber o peso dos dias.
Mas junto dessa luz havia dores silenciosas. Tristezas que não sabiam ainda dizer o nome, mas que já doíam. Ausências sentidas cedo demais, palavras duras que ficavam grudadas na memória, descobertas que arrancavam um pedaço da infância antes da hora. Janeiro também ensinava que nem todo sol aquece por dentro.
Essas férias foram um aprendizado cru…a alegria não vinha pura, e a tristeza nunca vinha sozinha. Ambas caminhavam juntas, moldando um coração que aprendeu cedo a sentir fundo. Talvez por isso, até hoje, janeiro não seja apenas descanso, é lembrança viva, mistura de riso aberto e silêncio pesado, uma infância que soube amar o mundo, mesmo quando ele machucava. Algumas passagens eu bloqueei, da minha infância.Xeeeero
Lindo texto. Alegrias e dores. Amadurecimentos é crescimentos uns naturais outros forçados na dureza da vida. De tudo fica força de continuar e viver. A vida ensinou.
A nostalgia presente em todos os seus passos.
Memórias afetivas fazem com que tenhamos a percepção de quem fomos no passado para projetar-mostrar o futuro .
Verdade. Passado cheio de alegrias. Projeção de futuro e boas recordações.
Adorei o texto amigo Trotta. Voltei no passado com lembranças maravilhosas da casa da.minha avó materna. Ia pra roça e lá encontrava com nada mais, nada menos, com 30 primos. Nem preciso descrever as experiências mirabolantes vividas nos períodos de férias! Muitas saudades! Eu era feliz e SABIA!!
Nossa. Que delícia. Uma verdadeira colônia de férias. Muitas boas memórias afetivas. Valeu.
Grandes memórias afetivas,como é bom revive-las,saber que fomos e somos felizes.gratidao.
Sim. Memórias felizes, infância em casa de vô, nas férias.
Lendo seu texto, lembrei-me dos períodos de férias, quando tios e primos que moravam fora vinham para Itajubá e lotavam a casa de meus avós paternos e todo dia parecia dia de festa, com a mesa de lanche cheia de quitandas deliciosas, e bons papos rolavam na grande varanda. Saudade!
Exatamente isso. Tudo virava festa e a alegria era contagiante.
Gostei muito do seu texto!! Quantas lembranças!!! Eu, meu amigo Trotta, sempre passei minhas férias aqui em Caxambu com meus pais e com meus 11 irmãos ( 8 irmãs e 3 irmãos). Divertíamos muito em casa, no nosso clube, CRAC, onde íamos nadar, jogar futebol, vôlei e Ping-Ping!! Íamos no Parque, também para nadar na piscina, remar no lago e tomar uns banhos no balneário!! E, assim, dentre muitas brincadeiras, farras, bagunças, passávamos as férias com muita diversão, alegria e ótimas lembranças. Tenho muita saudade!! GRATIDÃO!!
Realmente momentos inesquecíveis. Boas lembranças e muitas atividades. A vida corria solta.