
No Dia de Finados temos uma oportunidade ímpar de pensarmos na vida. De nos lembrarmos da vida daqueles que já se foram e de como foi viver ao lado deles. Rever o passado, recordar e se sentir inteiro dentro do ciclo da vivência. Pensar que, em pensamentos, os momentos reatam e entrelaçam pessoas e situações distintas.
Vive em nós quem já morreu. E podemos perceber que somos o acúmulo, a experiência e o legado de tantos que, ao morrerem, nos completam. Alimentamos nossas almas de alegrias e tristezas, felicidades e sofrimentos. Morremos porque vivemos. Não é a morte que vive, mas é a vida que morre. Portanto, é da vida que temos que viver o máximo, o sublime, o essencial.
Morrem aqueles que nós mais amamos. Antes de partirem, viveram para compartilhar esse amor, a sua poesia. Antes de nos deixarem, viveram, nos deram vida e nos ensinaram a viver. Agora, vivem em nós! São partículas invisíveis que nos fazem ver a substância, o conteúdo, não mais da forma pela qual enxergávamos. O essencial é visto pelo coração.
Ao pensarmos em nossos mortos, nos lembramos deles enquanto estavam vivos e nos momentos de cumplicidades, emoções compartilhadas, situações singulares, quando a vida pulsava e registrava na alma o que só a alma é capaz de revelar. O filme da memória se rebobina e as cenas dão lugar aos sentimentos. São emoções sem cortes, mas que cortam o coração. São cicatrizes da alma? São lembranças e conclusões íntimas da vida, de quem partiu, do que ficou.
A morte nos impõe a sensação da perda total. Da falência múltipla da alma. A vida parece pequena e impotente diante da grande e inestimável perda. As cortinas das pálpebras se fecham, a dor parece irresistível e o sofrimento circula por todos os cantos e recantos do coração. A vida parece que é realmente nocauteada. Mas resistimos. Não permitimos que a morte vença quando, ao nos mantermos vivos, fazemos viver, em nós, aqueles que morreram, que partiram, que remaram à outra margem.
A morte parece ser o ponto final, o fim do texto, o derradeiro parágrafo, a última palavra. Mas é na vida que a poesia encontra inspiração e versos para descrever a história de cada um de nós. Para imprimir nas letras e na alma a saudade de quem se foi. Enquanto houver poesia e um coração para amar, ninguém morre. Apenas adormece nos versos do poeta.
Antonio Trotta – Jornalista, escritor e poeta
@atrottamg












Meus queridos vivem em mim!
Em todos nós.
Como sempre belo e verdadeiro!
O amor deixa retalhos em nós ! Presença viva de quem habitou nosso castelo interior.
Ajudou mesmo a construir esse castelo.
Sua poesia é alento para a alma, linda e leve, ainda que o tema seja dolorido.
Temas doloridos precisam de açúcar e afeto, ainda mais quando temos que ingerí-los.
Trotta, seu texto é bonito. Mas há mortes que não adormecem nos versos. Há mortes que a gente carrega como um cemitério inteiro dentro do peito. Eu escrevi uma música sobre isso. Chama-se ‘O Cemitério que Carrego’. E é sobre as mortes que não viram poesia, mas que a gente canta para não enlouquecer.
https://youtu.be/n8lRwQdkwZI
Excelente meu caro. Cantar é deixar a alma mais leve para carregar tantos cemitérios que também vivem em nós.