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Home ARA SÔ

HISTÓRIA DE UM CONTADOR DE ESTÓRIAS

DE ANTONIO TROTTA

Domingos Antunes Guimarães por Domingos Antunes Guimarães
28 de junho de 2026
em ARA SÔ, Destaques
24
HISTÓRIA DE UM CONTADOR DE ESTÓRIAS


O melhor contador de estórias que conheci em toda a minha vida foi meu avô materno. Seus contos, causos e anedotas hipnotizavam a criançada ao ponto de não piscar os olhos e nem conseguir sair do lugar para ir ao banheiro. Suas palavras eram mágicas, pois criavam formas, cresciam e tornavam-se vivas em nossas memórias de crianças. O mundo parecia encantado nas estórias de meu avô.
Passávamos férias na varanda da casa de nossos avós, na cidade de Caxambu. Literalmente na varanda, pois era exatamente ali que passávamos o tempo e a vida ganhava outra dimensão. Por horas, escutávamos meu avô falando, rindo, choramingando e balbuciando sons e palavras que nos colocavam diretamente em contado com um mundo de fantasias e com as fantasias do mundo.

Tudo parecia existir e ter sentido, pois só ele sabia dar sentido e vida a tudo. Talvez, por ter sido pai tantas vezes, tenha adquirido a “pedagogia” e a “sabedoria” dos avós. Já o conheci como um avô calejado na arte da convivência – um homem que soube viver, conviver e aprender a vivência do mundo que tanto observava. Meu avô não conheceu o Mundo, mas soube criar um mundo encantado, contado e recontado por ele.
Nós, os netos, gostávamos da varanda, pois dela “nascia” uma rua; e por essa rua circulavam a realidade, o cotidiano e as notícias. Da varanda, o mundo corria solto. Na varanda, a vida andava livre, sem pressa e repleta de sonhos.
Assentávamo-nos nas cadeiras com almofadas, no degrau da escada e no murinho, entre as flores que minha avó cultivava. Empinhocados, puxávamos prosas, e ele soltava a língua e a imaginação.

Ora ouvíamos suas estórias pelas manhãs, enquanto aguardávamos o almoço feito pelas mãos encantadas de nossa avó, ora escutávamos seus causos depois do almoço. Chegávamos, muitas vezes, a ficar paralisados até o café da tarde. Sabíamos que não teríamos todos os dias, a toda hora, aquelas estórias como só ele sabia contar. Aproveitávamos para curtir ao máximo, ouvir pela milésima vez, estórias narradas nas férias anteriores, mas que simplesmente nos encantavam. Cresci sem nunca parar para pensar se era o meu avô que nos fascinava tanto ou se eram suas estórias.
Sabíamos e ainda guardamos suas estórias de cor – dentro do coração –, repetindo-as nos encontros de família. Lembranças que o tempo não conseguiu apagar. Um livro encantado foi escrito em nossas almas e ele é resgatado, sempre que necessário, pela memória e pelos sentimentos da saudade de quem já se foi.
Hoje sei que essas estórias são verdadeiramente encantadas, pois estão vivas dentro de mim. Percebo que elas têm forças porque encontram ressonância em seu melhor contador.
Meu avô soube permanecer vivo dentro de nós.

Antonio Trotta – Jornalista, escritor e poeta
@atrottamg

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Comentados 24

  1. João Batista Machado Filho disse:
    4 meses atrás

    Parabéns, estórias de avô são encantadoras ainda melhor no ambiente conforme narrado. Deixa saudades.

    Responder
    • Antonio Trotta disse:
      4 meses atrás

      Verdade. São lembranças, saudedes e memórias guardadas e marcadas na vida.

      Responder
  2. Francisco Trotta disse:
    4 meses atrás

    Linda lembrança! Que privilégio conviver com nosso avô Antônio, um artista na arte de contar estórias , um verdadeiro ator que transformava a varanda em seu palco e uma plateia atenciosa e entusiasmada. Parabéns!!

    Responder
    • Antonio Trotta disse:
      4 meses atrás

      Sim. Ele era o cara wue encantava e contava com maestria suas estórias. Sabia conquistar a plateia.

      Responder
  3. Emerson Cota disse:
    4 meses atrás

    Essa leitura me fez lembrar da minha avó, no interiorda Bahia. Na minha infância, era ela que contava estórias para nós, eram muitas, cada uma trazia emoções diferentes. Como as de assombração, mula sem cabeça etc. Recordar é reviver e trazer novas emoções para as nossas novas realidades.

    Responder
    • Antonio Trotta disse:
      4 meses atrás

      Que legal. Sempre bom recordar e sentir aquele arrepio das noites escuras e srm lua.
      Muito bom.

      Responder
  4. Paula Mesquita disse:
    4 meses atrás

    Minha mãe sempre contava histórias para mim e no final sempre ensinava a moral da história. Acabei criando meus filhos dessa forma e me lembro até hoje em como esses momentos eram preciosos.

    Responder
    • Antonio Trotta disse:
      4 meses atrás

      São diamantes brutos para serem moldados. Uma lição e um aprendizado singular. Lindo.

      Responder
  5. Maria do Carmo disse:
    4 meses atrás

    Meu velho pai era o contador das histórias ( estórias), na minha infância.
    Ele assentava no banco da cozinha e ali, tecia com as palavras , as mais incríveis histórias. Ficávamos de olhos fixos nele, enquanto imaginávamos as cenas …
    Tempo bom!
    Oh ,tempo bom!

    Responder
    • Antonio Trotta disse:
      4 meses atrás

      Tempo de aprendizado e de imaginar o mundo. Tempo de viver e aprender a vida. Excelente.

      Responder
  6. Marina Escobar disse:
    4 meses atrás

    O que mais marcou minha infância foram as brincadeiras na rua e as tardes no quintal, cercadas de histórias e risadas. Era um tempo em que a felicidade morava nas coisas mais simples. Uma época boa que não volta, mas que vive nas melhores lembranças.

    Responder
    • Antonio Trotta disse:
      4 meses atrás

      Era uma farra só. Muita alegrias e brincadeiras. Delícia.

      Responder
  7. Maximiano Tiburcio Pereira Ribeiro disse:
    4 meses atrás

    Muito boas lembranças, Trotta! São essas coisas que a gente leva sempre com prazer na vida, leves e preciosas…

    Responder
    • Antonio Trotta disse:
      4 meses atrás

      Verdade. Lindas e boas recordações. Vale sempre mais recordar.

      Responder
  8. Glória Fontoura de Siqueira disse:
    4 meses atrás

    O texto me faz lembrar um tio que contava histórias e estas permanecem na minha memória afetiva. E a partir dessa vivência, que tive o privilégio de contar muitas histórias para minhas filhas . Mais que contar histórias é esperenciar laços afetivos , aprender o encantamento. Esses aspectos as máquinas não podem nos dar.Encantar-se, experienciar o afeto, ter brilho no olhar e lembranças na alma são coisas que uma criança precisa aprender a partir do seu meio ,que inclui toda natureza , na qual estamos inseridos. Vamos contar mais histórias, nos sentar mais à mesa e compartilhar a vida ! São momentos que esquecemos as máquinas e somos simplesmente humanos, contando nossas histórias e nos entantando.Parabéns pelo lindo texto! Amei!

    Responder
    • Antonio Trotta disse:
      4 meses atrás

      Humanos e vivermos nossas experiências. Memória, recordação, lembra e vivências. Acúmulos de saudades.

      Responder
  9. maria cristina mallet porto disse:
    4 meses atrás

    Minha mãe contava estórias e eu adorava ouvir, pois viajava com elas. Mergulhava em mundos encantados! Ajudou a desenvolver meu mundo omegético!

    Responder
    • MentoAntonio Trotta disse:
      4 meses atrás

      Ouvir e viver histórias, puro encantamento. A imaginação corre solta e voa longe.

      Responder
  10. Maria Élida Machado disse:
    4 meses atrás

    Meu pai contava histórias de pescarias e de seus sonhos para os meus filhos. Eles adoravam…Memórias afetivas maravilhosas! Obrigada pela linda crônica cheia de sensibilidade!

    Responder
    • MentoAntonio Trotta disse:
      4 meses atrás

      É tão bom ouvir histórias, sonhos e quiçá realidade bem ali na frente. Curtir e reviver tudo isso e muito bom.

      Responder
  11. Margaret disse:
    4 meses atrás

    Num período da minha infância, casa iluminada com lampião e lamparina, a memória afetiva favorita é da criatividade dos meus pais “plagiando” os contos infantis renomados para a nosso dia a dia!!

    Responder
    • MentoAntonio Trotta disse:
      4 meses atrás

      De todas as formas e de tantas maneiras, assim acontecem memórias e lembranças do tempos de nossa infância.

      Responder
  12. Maximiliano Barbosa disse:
    4 meses atrás

    Contar estórias é a essência da evolução humana, na antiguidade durante muito tempo as leis, os costumes, as tradições religiosas e culturais eram transmitidas oralmente (consuetudinariamente) através de estórias, mitos e lendas, dos anciãos aos jovens. Desde a Grécia e Roma antigas até as tribos indígenas.

    Todos gostam de ouvir uma boa estória, isso está gravado em nosso DNA, em nossa memória coletiva.

    Parabéns pelo artigo!

    Responder
  13. Laudelino Augusto dos Santos Azevedo disse:
    3 meses atrás

    Hoje, 26 de julho, Dia do Vovô e da Vovó, é um dia especial para lembrar do Vô Totonho, tão bem retratado pelo primo Antônio Trotta. O Vô não só contava estórias, ele as encenava, detalhava o cenário, arremedava, chorava, sorria, era completo no uso de seu dom. E, ainda, tinha sempre nos bolsos umas balinhas para distribuir para nós!
    Obrigado pelas lembranças e parabéns para você e Flávia pelo Dia do Vovô e da Vovó!

    Responder

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