
O melhor contador de estórias que conheci em toda a minha vida foi meu avô materno. Seus contos, causos e anedotas hipnotizavam a criançada ao ponto de não piscar os olhos e nem conseguir sair do lugar para ir ao banheiro. Suas palavras eram mágicas, pois criavam formas, cresciam e tornavam-se vivas em nossas memórias de crianças. O mundo parecia encantado nas estórias de meu avô.
Passávamos férias na varanda da casa de nossos avós, na cidade de Caxambu. Literalmente na varanda, pois era exatamente ali que passávamos o tempo e a vida ganhava outra dimensão. Por horas, escutávamos meu avô falando, rindo, choramingando e balbuciando sons e palavras que nos colocavam diretamente em contado com um mundo de fantasias e com as fantasias do mundo.

Tudo parecia existir e ter sentido, pois só ele sabia dar sentido e vida a tudo. Talvez, por ter sido pai tantas vezes, tenha adquirido a “pedagogia” e a “sabedoria” dos avós. Já o conheci como um avô calejado na arte da convivência – um homem que soube viver, conviver e aprender a vivência do mundo que tanto observava. Meu avô não conheceu o Mundo, mas soube criar um mundo encantado, contado e recontado por ele.
Nós, os netos, gostávamos da varanda, pois dela “nascia” uma rua; e por essa rua circulavam a realidade, o cotidiano e as notícias. Da varanda, o mundo corria solto. Na varanda, a vida andava livre, sem pressa e repleta de sonhos.
Assentávamo-nos nas cadeiras com almofadas, no degrau da escada e no murinho, entre as flores que minha avó cultivava. Empinhocados, puxávamos prosas, e ele soltava a língua e a imaginação.

Ora ouvíamos suas estórias pelas manhãs, enquanto aguardávamos o almoço feito pelas mãos encantadas de nossa avó, ora escutávamos seus causos depois do almoço. Chegávamos, muitas vezes, a ficar paralisados até o café da tarde. Sabíamos que não teríamos todos os dias, a toda hora, aquelas estórias como só ele sabia contar. Aproveitávamos para curtir ao máximo, ouvir pela milésima vez, estórias narradas nas férias anteriores, mas que simplesmente nos encantavam. Cresci sem nunca parar para pensar se era o meu avô que nos fascinava tanto ou se eram suas estórias.
Sabíamos e ainda guardamos suas estórias de cor – dentro do coração –, repetindo-as nos encontros de família. Lembranças que o tempo não conseguiu apagar. Um livro encantado foi escrito em nossas almas e ele é resgatado, sempre que necessário, pela memória e pelos sentimentos da saudade de quem já se foi.
Hoje sei que essas estórias são verdadeiramente encantadas, pois estão vivas dentro de mim. Percebo que elas têm forças porque encontram ressonância em seu melhor contador.
Meu avô soube permanecer vivo dentro de nós.
Antonio Trotta – Jornalista, escritor e poeta
@atrottamg















Parabéns, estórias de avô são encantadoras ainda melhor no ambiente conforme narrado. Deixa saudades.
Verdade. São lembranças, saudedes e memórias guardadas e marcadas na vida.
Linda lembrança! Que privilégio conviver com nosso avô Antônio, um artista na arte de contar estórias , um verdadeiro ator que transformava a varanda em seu palco e uma plateia atenciosa e entusiasmada. Parabéns!!
Sim. Ele era o cara wue encantava e contava com maestria suas estórias. Sabia conquistar a plateia.
Essa leitura me fez lembrar da minha avó, no interiorda Bahia. Na minha infância, era ela que contava estórias para nós, eram muitas, cada uma trazia emoções diferentes. Como as de assombração, mula sem cabeça etc. Recordar é reviver e trazer novas emoções para as nossas novas realidades.
Que legal. Sempre bom recordar e sentir aquele arrepio das noites escuras e srm lua.
Muito bom.
Minha mãe sempre contava histórias para mim e no final sempre ensinava a moral da história. Acabei criando meus filhos dessa forma e me lembro até hoje em como esses momentos eram preciosos.
São diamantes brutos para serem moldados. Uma lição e um aprendizado singular. Lindo.
Meu velho pai era o contador das histórias ( estórias), na minha infância.
Ele assentava no banco da cozinha e ali, tecia com as palavras , as mais incríveis histórias. Ficávamos de olhos fixos nele, enquanto imaginávamos as cenas …
Tempo bom!
Oh ,tempo bom!
Tempo de aprendizado e de imaginar o mundo. Tempo de viver e aprender a vida. Excelente.
O que mais marcou minha infância foram as brincadeiras na rua e as tardes no quintal, cercadas de histórias e risadas. Era um tempo em que a felicidade morava nas coisas mais simples. Uma época boa que não volta, mas que vive nas melhores lembranças.
Era uma farra só. Muita alegrias e brincadeiras. Delícia.
Muito boas lembranças, Trotta! São essas coisas que a gente leva sempre com prazer na vida, leves e preciosas…
Verdade. Lindas e boas recordações. Vale sempre mais recordar.
O texto me faz lembrar um tio que contava histórias e estas permanecem na minha memória afetiva. E a partir dessa vivência, que tive o privilégio de contar muitas histórias para minhas filhas . Mais que contar histórias é esperenciar laços afetivos , aprender o encantamento. Esses aspectos as máquinas não podem nos dar.Encantar-se, experienciar o afeto, ter brilho no olhar e lembranças na alma são coisas que uma criança precisa aprender a partir do seu meio ,que inclui toda natureza , na qual estamos inseridos. Vamos contar mais histórias, nos sentar mais à mesa e compartilhar a vida ! São momentos que esquecemos as máquinas e somos simplesmente humanos, contando nossas histórias e nos entantando.Parabéns pelo lindo texto! Amei!
Humanos e vivermos nossas experiências. Memória, recordação, lembra e vivências. Acúmulos de saudades.
Minha mãe contava estórias e eu adorava ouvir, pois viajava com elas. Mergulhava em mundos encantados! Ajudou a desenvolver meu mundo omegético!
Ouvir e viver histórias, puro encantamento. A imaginação corre solta e voa longe.
Meu pai contava histórias de pescarias e de seus sonhos para os meus filhos. Eles adoravam…Memórias afetivas maravilhosas! Obrigada pela linda crônica cheia de sensibilidade!
É tão bom ouvir histórias, sonhos e quiçá realidade bem ali na frente. Curtir e reviver tudo isso e muito bom.
Num período da minha infância, casa iluminada com lampião e lamparina, a memória afetiva favorita é da criatividade dos meus pais “plagiando” os contos infantis renomados para a nosso dia a dia!!
De todas as formas e de tantas maneiras, assim acontecem memórias e lembranças do tempos de nossa infância.
Contar estórias é a essência da evolução humana, na antiguidade durante muito tempo as leis, os costumes, as tradições religiosas e culturais eram transmitidas oralmente (consuetudinariamente) através de estórias, mitos e lendas, dos anciãos aos jovens. Desde a Grécia e Roma antigas até as tribos indígenas.
Todos gostam de ouvir uma boa estória, isso está gravado em nosso DNA, em nossa memória coletiva.
Parabéns pelo artigo!
Hoje, 26 de julho, Dia do Vovô e da Vovó, é um dia especial para lembrar do Vô Totonho, tão bem retratado pelo primo Antônio Trotta. O Vô não só contava estórias, ele as encenava, detalhava o cenário, arremedava, chorava, sorria, era completo no uso de seu dom. E, ainda, tinha sempre nos bolsos umas balinhas para distribuir para nós!
Obrigado pelas lembranças e parabéns para você e Flávia pelo Dia do Vovô e da Vovó!