
A viagem era sempre uma festa, uma diversão, apesar do cansaço, pois a partida acontecia por volta das cinco da manhã. Ao se aproximar de alguma cidade, o trem apitava e o que era apenas mato ia se transformando em pequenas casinhas que, aos poucos, iam se ajuntando; enfileiradas, acabavam por cercar a estação ferroviária. O trem, então, parava. Muita gente descia e novos rumos tomavam.
Em Soledade de Minas, os trens se encontravam. Em sua estação, os passageiros buscavam os seus destinos. Eu, menino, descia e não mais prosseguia viagem, pois, da estação, seguia para a fazenda de meus avós.
Até chegar na estação, tudo tinha encantamento e a realidade parecia andar sossegada sobre os trilhos. No entanto, de posse de minha mala, sentia um frio horripilante na barriga e o medo tomava conta de mim. Com os pés no chão, dava-me conta de que a estação ficava de um lado do rio e a fazenda, do outro lado. Entre a viagem e uns dias de diversão na roça, eu tinha que enfrentar um grande desafio.
Bem de frente da estação estava ela, majestosa e metálica, em arcos de ferro fundido, com grandes e grossos parafusos, que pareciam ser maiores que o meu braço de garoto franzino. Era linda como arquitetura e possuía uma missão nobre, pois ligava uma margem à outra do rio. Uma ponte vistosa, a única naquele porte que eu conhecia e que me permitia atravessar para chegar ao meu destino.
Meu medo aumentava quando dela me aproximava. Ela, toda em ferro, tinha como piso madeiras. Eram grossas, mas estavam soltas, desprendidas da estrutura metálica. Ainda por cima, várias madeiras faltavam em alguns espaços. Ao pular o vão percebia o rio que passava lá em baixo. Pensava: “E se eu não conseguir? Se meus pés pisarem em falso, serei levado pelas águas?”. Muitas vezes, dava as mãos para meu pai, ou à minha mãe ou a um parente mais velho. Mas, nem sempre tinha ao meu lado uma mão segura para assegurar a travessia.
Nunca permiti que aquela ponte me parasse e não me deixasse chegar ao outro lado. Minhas preces eram pronunciadas silenciosamente, meu sangue fervia e minhas pernas avançavam, trêmulas, mas enfrentavam o perigo. O pior momento era quando um carro passava ao mesmo tempo em que os pedestres. Algumas peças de madeiras se levantavam e o barulho de tábuas vinha em ondas acompanhando o movimento do veículo. A ponte parecia não mais suportar. Meu coração gelava e o medo me tomava por dentro. Aquilo parecia não ter fim.
Já do outro lado da margem e sem meus pés sobre aquela ponte, respirava aliviado. Ao olhar para trás, imaginava que teria que enfrentá-la na volta. Sentia arrepios. Sabia que, ao deixar a fazenda para voltar à estação, eu ainda teria que desafiar a velha ponte mais uma vez.
Antonio trotta – Jornalista, escritor e poeta
@atrottamg
Crédito da foto da ponte: Eliane Batagini















Como lembrança é linda e significativa mas como realidade era dura, desafiadora. Como crianças conhecendo o mundo Compartilhávamos o mesmo sentimento. Desafios existem para serem vencidos, aprendemos. A ponte de Soledade de Minas foi uma lição de vida. Belo texto.
Sim. Uma lição que nos marcou e nos deu uma linda lição.
Lindo texto. Me recorda meu avô Leopoldo, pai de minha mãe que trabalhava na rede ferroviária, nesse trecho, trabalhava na manutenção e construção de pontes, um engenheiro autodidata. Contava para minha mãe suas novas realizações, eu pequeno e curioso ficava ouvindo. Na minha juventude, naquela fase de escolher o que estudar profissionalmente, pensava muito em ser engenheiro e construir estradas e pontes, porém a vida me levou a outro caminho que me faz muito feliz também.
É isso ai. Tempos vividos, sonhos para se realizar e um futuro para se construir. Muito bom.
Belo texto. Lembranças em mais pura nostalgia!
Esta ponte de Soledade de Minas
Me lembra a ponte de Baependi, me dá tremedeira nas pernas so de pensar em passar por ela
A Jornada dos Pequenos Pés
No início, eram apenas pequenos pés que sonhavam com um destino. Acompanhados por amigos na estrada de ferro, avançavam com coragem, até que diante deles surgiu o desafio: um pontilhão, trilhos suspensos, batentes frágeis e um rio profundo abaixo. Voltar não era opção. O chamado da aventura exigia seguir em frente.
Cada passo era uma conquista, cada batida do coração uma prova de coragem. A ansiedade crescia com a chegada inesperada do trem, símbolo do destino que se aproximava. O sol brilhava como guia, o vento soprava como consolo, mas a altura e a insegurança testavam a fé dos pés. Era preciso atravessar, mesmo sem garantias.
O caminho não oferecia descanso: esperar o trem era aceitar o medo, seguir era abraçar a solução. Cada passo sobre o pontilhão tornava-se uma batalha vencida, uma afirmação de que o destino não se alcança sem enfrentar o desconhecido.
Ao chegar em terra firme, os pequenos pés já não eram os mesmos. Tinham se transformado em pés de aventura, que aprenderam que vencer não é apenas chegar ao fim, mas enfrentar o percurso com coragem, emoção e esperança.
Excelente. Que magnitude conquistaram esses pequenos pés! Um texto lindo e que me fez lembrar do pontilhão atrás do Edifício Issa, em Itajubá. Meu Deus, que desafio.
As pontes ainda que de tábuas não me causavam temor na infância mas as pinguelas sim.
Ainda que sobre um singelo córrego ou corguinho como falávamos me causavam medo.
Enfrentar seus desafios e seus medos. Tudo é lembrança e aprendizado.
Belíssimo texto que nos remete a infância. Sempre há uma ponte que nos causa medo.
Lindas reflexão. Há sempre algo nos desafiando. Precisamos sempre ultrapassar nossos medos.
São muitas as pontes que atravessamos ao longo da vida! Medos, superações, chegadas! O mais importante é esta compreensão de que as circunstâncias se apresentam como pontes para serem transpostas. Assim, vamos nos desenvolvendo com consciência e pés no chão, mesmo quando tremem! Lindo texto, Trotta!
Então, o desafio está dado e a nossa força precisa ser renovada para podermos ir sempre mais além de nossos medos.
Entre risos e imaginação atravessei a ponte contigo rsrs. Não tive o privilégio de conhecer essa perigosa, mas tão necessária ponte, mas conheci outras idênticas e até “pinguelas” que desafiava minha coragem ao atravessa-la… A estação, o trem tudo se entrelaça em minhas memórias em outras regiões no estado de São Paulo… Vivi grandes aventuras ao viajar de trem de Fernandópolis a São Paulo, uns 550 km sentada em bancos de madeira, no entanto, a viagem era uma aventura incrível… Gratidão Vitalícia por me reportar a tempos tão memoráveis!
Cada um com a sua ponte e seus tropeços. Aventuras que nós remetem à memória.
Feliz de quem tem uma ponte nas suas memórias de infância! Sinal de que convivia com um rio…Tua crônica me remeteu a minha infância. A ponte da minha cidade era enorme, magestosa, assustadora até…bem mais tarde percebi que não era tudo isso!
kkkkkk
Boas memórias, boas pontes. Atravessá-las é que são elas.
Meu desafio era subir à noite uma escada que não tinha iluminação. Eu enfrentava cantando alto pra espantar os fantasmas. rsrsrs Sinto que essa experiência fortaleceu-me, continuo desafiando-me.
Meios e maneiras de enfrentar a vida e nossos fantasmas.
Maravilhoso texto… Sempre tem uma ponte que nos causa arrepios… Também tive momentos hilários, o medo era tanto que sempre voltava quando já estava na metade da ponte.
Pois é. Duas metades dava um inteiro. Punham-nos à prova de todas as maneiras.
Oh ! que saudades que eu tenho
Da aurora da minha vida
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais !
– Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais !
Casimiro de Abreu
Meus oito anos.
Quantas aventuras e loucuras nessa infância faceira e cheia de aprendizados para a vida inteira.
Todos temos uma ponte, uma estrada, ou um local qualquer que marcou nossa vida em algum momento. Recordar é de certa forma nos reconectar com nossas raízes.
Verdade. Um recomeçar diferente.
As lembranças de infância são poderosas. Quanta emoção envolvida simplesmente por atravessar uma ponte, algo que seria corriqueiro para um adulto. Mas na sua visão infantil, era um feito desafiador.