Não romantizo o envelhecimento, não sei utilizar a nomenclatura da moda, nem me arrisco a acompanhar, a cada dia, o aparecimento de novos conceitos, definições, teorias sobre o envelhecimento. Para mim, trata-se da velhice mesmo, para alvoroço dos meus queridos amigos que estudam o tema. Uma fase da vida que é almejada por todos, afinal, envelhecer é a nossa resistência a morrer, não há outro caminho. O negócio é envelhecer bem, com saúde, mantendo o corpo e a mente em movimento. As pessoas idosas, nos últimos tempos, por estarem ativas, passaram a ser alvo de campanhas de marketing, viraram consumidores cobiçados por marcas e serviços, o que as torna também alvos fáceis para todo o tipo de golpe, especialmente no universo da internet. São muitas as dimensões do envelhecimento que geram reflexões. Penso, neste momento, no sentido utilitário da vida para refletir sobre a velhice. Em todo o ciclo vital, na sociedade capitalista em que vivemos, nosso valor é em muito dimensionado pelo que produzimos, ou seja, pela utilidade que temos na engrenagem quase industrial que configura a nossa existência. Vivemos no lado ocidental do mundo, onde a autoridade, a sabedoria, o lugar de destaque e respeito, atribuídos aos idosos, próprios do mundo oriental, não nos pertencem. Meu pensamento volta-se para a utilidade das pessoas idosas, não no seu sentido mais óbvio, como quando participam do orçamento doméstico com as suas aposentadorias, quando estão disponíveis para cuidar dos netos para os pais passearem aos fins de semana ou na semana inteira, virando pais, não sendo avós, isso é outro assunto. Destaco a utilidade humana no trabalho formal. Muitas pessoas, mesmo tendo alcançado o tempo de serviço e contribuição para a aposentadoria, não conseguem parar de trabalhar. Usam os argumentos mais variados para continuarem a trabalhar eternamente.

Alguns dizem que gostam de trabalhar, como se os aposentados não gostassem do seu trabalho, acho que a maioria gostava, porém, assumiram que o ciclo laboral acabou. Outros dizem que não conseguiriam ficar parados ao se aposentarem, como se as pessoas aposentadas se recolhessem à poltrona e às pantufas de um dia para outro. Isso existe, mas a discussão passa pela depressão e aí também a utilidade da vida tem papel definidor. Já ouvi pessoas idosas dizerem que não saberiam o que fazer sem o seu trabalho, triste que ao longo da vida não experimentaram outros prazeres, é preciso acreditar que nunca é tarde. Acho ainda pior os que dizem que precisam trabalhar mais um pouco para terminarem algum projeto ou tarefa iniciada, como se fossem insubstituíveis. Não querem arriscar perceber que serão substituídos rapidinho. Creio que está por trás de todos esses argumentos o tal senso de utilidade, que é visceral em nós. O medo silencioso de não ter mais utilidade para nada. Melhor negar o que vivenciamos a cada dia. Não somos mais úteis para cuidar de bebês, temos dificuldade de ouvir seu chorinho, não conseguimos correr tão agilmente atrás dos netos superativos, nosso leva e traz de netos da escola preocupa nossos filhos que percebem a diminuição da nossa agilidade ao volante. Nem somos mais úteis para enfrentar filas em bancos ou fazer serviços externos, como era comum há um tempo, esses serviços não existem mais, tudo está nos celulares. Com estes também não temos muita afinidade, certamente não sabemos utilizar a maioria de suas funcionalidades. Uma amiga me contou que a filha não quer mais que ela passeie com os cachorros, o que fez a vida toda, porque ela estressa os pets! Nem para passear com cachorros somos úteis! Não é nenhum pouco agradável perceber quando estamos sendo descartados, tratados como crianças ou idiotas. Tenho certeza de que toda a pessoa idosa já sentiu isso em algum momento, mas estamos aí, nos superando, vencendo obstáculos com a sabedoria que o passar da vida proporciona e com o frescor que nos trazem os contatos intergeracionais saudáveis. Talvez o mais difícil seja enfrentar as vozes da nossa cabeça que insistem em gritar o tempo todo: seus velhos inúteis!














Eu era um que não me via sem meu trabalho….a vida me aposentou e estou adorando está fase sem compromisso formal, gosto de ter o tempo pra mim, para minhas coisas, gosto e muito de viajar com nossa casinha, de cuidar das plantas, inventar minhas gambiarras.
Quando não estamos viajando e ficamos na casa fixa, tem muitas coisas para fazer.
Já criei três filhos e hoje não me adapto a tarefa de ser paivô.
Cada um se reinventa do seu jeito!
Baita texto, amiga Maria Élida. Não somente pelo tanto que me identifiquei em praticamente todos os aspectos relatados, mas pela leveza da escrita, quase como uma música. Gosto de ler o que escreves, mas neste texto te superaste. Parabéns, e obrigada. Essa leitura foi um brinde, ou melhor, merece um brinde! Hehehehehe. Beijos
Vamboraaaaa brindar então! Obrigada pelo carinho!
Maravilhosa reflexão!! ❤️
Obrigada! Que bom que gostaste!
Sua Velha “UTILÍSSIMA”…Me sinto orgulhoso de ter convivido contigo na “forma laboral e de parceria”…Agora mandando ver com tuas escritas belas e úteis…ENVELHAÇA MAIS E MELHOR COMO ESTÁ SENDO PARA TI E GILBERTO…e nos ensine cada vez mais como uma “Grande Professora que foste! …Saudades…Bjos
“…ENVELHEÇA MAIS…”
Envelhecerei…kkkk
Obrigada querido amigo do trabalho e para sempre!
Novamente Elida traz uma excelente reflexão, sobre um tema que se não nos é familiar hoje, o será amanhã… Aposentamo-nos do trabalho, não da vida. Aposentar significa ter tempo para projetos e prazeres que antes nao tínhamos. E isso inclui o “modo” vó, essa bela experiência. Apenas sabemos hoje que temos que estabelecer quotas e limites pros netos e filhos com agendas intensas.Com licença, tenho que ir para a academia e depois encontrar aquele livro pendente desde que eles eram crianças…
É isso Silvia! A gente se aposenta do trabalho! Não da vida!
Valeu José Cláudio
texto ótimo… e realista, para o bem e para o que se tem que ser…
Obrigada! Que bom que estás conosco aqui no Exempplar!
Utilidade…palavrinha mais sacana. Pode significar utilidade de produzir e consumir como a compreende nossa sociedade moderna ocidental. Ou…a boa e antiga necessidade de se sentir parte do mundo, se sentir vivendo em possibilidades e fazendo parte de uma engrenagem de afetos. Tuas crônicas são sempre muito reflexivas. E muito boas!
Obrigada querida pelo atento comentário que enriquece minha crônica!
Muito importante essa reflexão! É difícil achar nosso novo papel nesse momento. Internamente, nos cobramos para continuar sendo produtivos e ativos, porque, como dizes, é o que o modelo exige. Mas a rebeldia pode ser possível! Nossa geração está desbravando esse momento de envelhecimento, sem os modelos passados, mas ainda sem saber tudo que é possível fazer no futuro…
E vamoquevamo…desbravando o novo envelhecimento!
Profe!
É a primeira coluna sua que leio. Estou de férias e tenho “mais tempo”, a vida utilitária me deu folga. Sabe, as vezes me pergunto se um dia vou conseguir viver sem meu trabalho, ao passo que, no outro dia, penso que já poderia estar aposentada. Por isso tenho planejado, na medida do possível, a velhice. Meus pais não puderam fazer isso. Pequenos agricultores que não conheceram outros prazeres. Ou conheceram algum tipo que não eu não soube decifrar.
Está sendo muito bacana te acompanhar lá nosso grupo de alunos e professores da Escola de Saúde Pública.
Adorei sua escrita. Gamei que quero passar a acompanhar essa coluna.
Obrigada por compartilhar conosco tua escrita, tua sabedoria e teu olhar sobre a vida.
Saudades…
Que bom te encontrar por aqui, Sandra! Obrigada pelo delicado comentário! Toda semana tem crônica aqui no Exempplar. Aproveita as férias e dá uma olhada geral nas crônicas passadas…vou adorar ler teus comentários!
Prezada Élida, ótimo texto. Envelhecer com saúde é muito importante, e falo de saúde emocional porque creio que o equilíbrio e sobriedade mental estão fazendo toda a diferença diante das situações perturbadoras que o mundo vive. Abração, Deus abençoe tua vida, bj
Obrigada Cris. Que bom te ter pertinho aqui no Exempplar.
Na verdade o segredo, na minha forma de ver, está em bastar-se. Viver bem consigo mesmo e a solitude. O Ser Humano muda sua percepção da vida, das pessoas e das coisas ao seu redor. Até de si. Por isso, seja uma boa companhia pra si, aprenda a envelhecer com qualidade…”se a força falta no braço, na coragem me sustento” (Veterano). E então o que vier da vida será recebido com toda resiliência humana possível. Jamais seremos inúteis, até depois de partirmos teremos algum fragmento em algum semelhante. Pode ter certeza disso. Abraço Queridos, Élida e Gil.
Teu comentário amplia a reflexão provocada pela crônica! Obrigada!
Valeu Átila
Envelhecer é poder assumir os papéis que antes , talvez tínhamos medo de tomar pra sim. É ótimo ver que a casa dia mais, pessoas como vcs fazem parte da nossa vida de uma maneira tão intensa. Exemplo de vivacidade!
E vamojuntooooo..é muito bom tê-la pertinho!
Linda reflexão, Élida querida! Sempre digo que todos nós precisamos de um objetivo para sair da cama, à cada manhã! E não importa a idade, sem um objetivo, não temos a motivação..
Desta forma, ao se “aposentar”, quem tinha como única motivação levantar para trabalhar, se vê perdido e sem “razão” ou “utilidade”!
Lembro de que me dei conta disso, quando, aos 40 anos passei por um cirurgia “grande” e ainda em recuperação no hospital pensei “e o que eu vou fazer, durante minha longa recuperação?” Como vou ter ânimo para fazer o esforço de levantar da cama? E resolvi, ainda no hospital, que eu iria aprender a pintar “caixinhas e outros objetos” de madeira.. um trabalho artesanal que sempre tive vontade de aprender e nunca havia tido tempo.. Fiquei 2 anos afastada do trabalho e nesse período produzi muito, levantava todas as manhãs pensando como iria “pintar” ou “decorar” determinada caixinha ou outro objeto.. e isso me manteve motivada durante minha lenta recuperação (física e mental)..
Eu diria que foi um ensaio para a aposentadoria.. voltei ao trabalho por mais uns 10 anos, e quando finalmente me aposentei, já havia encontrado outros motivos para continuar levantando pela manhã: viajar… desde o definição de um lugar, passando pelo planejamento, organização até ir e voltar, tudo me envolve e me motiva, e entre uma e outra, estar com a família, ser útil quando alguém precisa de ajuda, planejar uma reforma na casa, ter tempo para ver um filme ou ler um livro, tudo isso me dá razões para levantar e viver cada dia!
Por isso, para mim, o segredo para envelhecer com a “cabeça boa” é esse: continuar tendo objetivos, planejando “coisas ou atividades”, ajudando aos outros (filhos, netos, etc) mas não fazendo disso sua única razão para “levantar da cama”… tendo atividades e objetivos que te deem prazer e que te mostram como viver e bom, mesmo com as limitações que a idade nos trás! ❤️!
Isso é envelhecer com propósito! É o que precisamos! Triste quem ainda não descobriu…
Perfeito Elida, sou especialista em envelhecimento e qualidade de vida e minhas aulas de dança são embasadas exatamente no que tu escreveste. Resumindo dignidade até o último sopro de vida e respeitem nossas histórias de vida somos adultos parem de nos infantilizar ou de esquecer nossas trajetórias e por fim todos têm paciência com crianças mas com velhos não. E o pior é a velhice é inevitável, caso não se morra antes, e eu não entendo como as pessoas continuam não reconhecendo o seu futuro. Um abraço e saudades ❤️
Que bom te ter pertinho aqui, Sio! Teu comentário amplia minha crônica. Obrigada! Saudades também…
Provocante, principalmente para quem já pode se aposentar e “ainda” não quer…
Se te provocou…valeu!
Ótimo texto! Reflexão importantíssima! Parabéns!
Obrigada, parceira de aposentadoria!
Envelhecer bem é ainda para poucos. Envelhecer com consciência também. Além da velhice ser uma fase difícil, de transição em vários aspectos, temos que lidar com essas questões de alguns familiares nos dizendo o que é bom ou não, o que podemos fazer ou não… É como se estivéssemos regredindo à infância, mesmo de depois de tanta estrada, tantas experiências, somos alvos de críticas, negligência, interesses e o pior título é esse: inúteis!
Se os idosos fossem mais respeitados, a juventude não estaria tão desviada, tão mais inútil e sem valores. Precisamos respeitar a idade em qualquer tempo. Mas a maior idade merece ainda mais! Respeito, ser ouvida e fazer dela lição ou ainda mais, matéria de estudos para cada um das suas famílias.
Velhos são tão úteis como a faca que corta o que se come. Então, que a inutilidade seja cortada por seus filhos, netos e decentes afins, com aprendizado familiar dos valores outrora tão presentes.
Obrigada Laura! Teu comentário amplia a crônica. Valeuuuuu
Texto realista e que retrata infelizmente o lugar que a sociedade ocidental dá aos mais velhos.
É nesse mundo que vivemos!