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Home ARA SÔ

Quando o tempo fala

DE ANTONIO TROTTA

Domingos Antunes Guimarães por Domingos Antunes Guimarães
25 de janeiro de 2026
em ARA SÔ, Destaques
21
Quando o tempo fala

Na casa de meus avós havia um telefone antigo que ficava ao lado do relógio. Todos os dois ficavam presos à parede. Um auxiliava o outro. Eles eram inseparáveis, sem serem grudados; eram companheiros, sem serem iguais; eram comunicadores, sem terem a mesma função. O telefone funcionava a manivela; o relógio só trabalhava se lhe davam corda. Mecânicos, porém, dinâmicos, eram peças raras de uma pequena parede – patrimônios da família e testemunhas da existência de tantas histórias.

Quantas vezes era pelas badaladas do relógio que se corria até o telefone! Hora marcada. Encontro. Fone ao ouvido. Coração badalando. Ponteiros se aproximando. Ligação interrompida. Engano. Silêncio. Nova tentativa. O tempo avançando. Vida. Mensagem transmitida a cada segundo.

Observando aquele simples caixote de madeira, plástico e aço inoxidável, ficava admirando o seu poder de comunicação. Afinal, aquela caixa de ressonância era o telefone que se conhecia. Infelizmente, o telefone não está mais lá, preso à parede, junto ao relógio. Portanto, ele não toca mais, não fala, nem tão pouco se pode ouvir uma voz clamando do outro lado. Telefone mudo. Parede vazia. Silêncio definitivo.

Ainda se ouvem as badaladas do velho relógio. Parecem tristes. Cansadas. Solitárias. Há muito tempo, deixou de escutar a campainha do telefone tocar. Nada se ouve além do angustiado badalo do relógio que, de tempo em tempo, procura em vão sintonizar o som com o velho companheiro. Nem som, nem voz, apenas sua presença fria e incomunicável.

Por décadas foram parceiros inseparáveis, em melodias diferentes, em diferentes sinfonias. Sem o velho companheiro, perdeu o entusiasmo, a freqüência. Afinal, foram anos a fio de musicalidades e harmonias distintas, mescladas. Um tocava o tempo; o outro, de tempo em tempo, tocava. Mais que parceiros se pareciam, tinham imagem e semelhança de quem controlava, de quem comandava ações e gestos. Despertavam e davam ritmo à vida, ao dia e à existência.

Do telefone nada mais se ouve, nada mais se fala. Ele está preso apenas na memória, na lembrança. Seu silêncio cala fundo. Parece que o incansável relógio está dando sinal de fraqueza. Há tempo, vem chorando em suas cordas, melodias tristes, que se perdem pela vida, que se desfazem no espaço e repercute na alma. São badaladas de desânimo, descompassadas, sem ritmo; dando a impressão de que o coração está pedindo para parar, pois não suporta tanta solidão.

 

Antonio Trotta – Jornalista, escritor e poeta

@atrottamg

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Comentados 21

  1. Dayse Carvalho disse:
    4 dias atrás

    Ah o tempo….
    Saudade da janela da cozinha ,onde minha mãe chamava agente ,qdo criança e distribuía um pedaço de bolo p cada.
    Ah o tempo..

    Responder
    • Antonio Trotta disse:
      3 dias atrás

      Que saudade boa. A infância marca demais. Deixa boas lembranças. Grato.

      Responder
  2. Ton Ferreira disse:
    4 dias atrás

    O texto é muito bonito e passa uma sensação forte de saudade. A comparação entre o telefone e o relógio é simples, mas cheia de significado, e faz a gente imaginar a cena com facilidade. Dá para sentir o silêncio, o tempo passando e a falta que um faz ao outro. É uma leitura delicada, que emociona e faz a gente pensar nas lembranças que ficam guardadas na memória.

    Responder
    • Antonio Trotta disse:
      3 dias atrás

      Sim. Dois companheiros que viveram por décadas dando informações. A vida passa entorno deles e da vida que junto, também passa. Gratidão.

      Responder
      • Simone Mone disse:
        3 dias atrás

        Texto nostálgico…constrói uma reflexão sobre o tempo, a comunicação e a memória, articulada pela ausência. Nos mostra como a vida perde ritmo quando os vínculos se rompem. Muito bom

        Responder
        • Antonio Trotta disse:
          3 dias atrás

          Bom também foi o seu comentário cheio de lindas análises. É disso que se trata. Grato.

          Responder
  3. Maria Augusta disse:
    4 dias atrás

    Há muito tempo, tento esquecer a saudade. Que ela existe! Ela surge, de repente, e eu a enxoto, pra nao sofrer. Preciso viver o hoje. Sem pensar muito no ontem nem esperar o amanhã. Desesperadamente, pego todos os meus nervos e faço uma rede pra me deitar, como dizia J. G. De Araujo Jorge, num poema que li na adolescencia…

    Responder
    • Antonio Trotta disse:
      3 dias atrás

      Sim. Temos que viver o presente. Do passado só lembranças boas. Não viver de passado, nem no passado. O presente é tudo.

      Responder
  4. Ana Cley Marques Pizarro disse:
    4 dias atrás

    Tenho uma grande linha de tempo na minha vida !
    E este meu tempo não caminha sozinho. Vem recheado de lembranças que pautaram minha vida. Quardo comigo muitas memórias coloridas: os diferentes tons de verde que convivi na fazenda; aquele belo verde do cafezal florido! Aquele verde claro do canavial exuberante esperando a foice ligeira para deitar logo ao chão. E a árvore do abacateiro no qual subia e fazia de seus galhos a caminha para minha boneca!
    Memoria olfativa , me faz recordar das baforadas do cachimbo de meu pai na ponta do Banco do alpendre dando ordem para a limpeza do chiqueiro com a tal de creolina . O cheiro do leite quentinho , tirado na hora em nossas canecas de alumínio , que ganhamos de alguém que esteve em Aparecida: “Estive em Aparecida@e lembrei – me de você “.
    Jamais me esqueci do cheiro do lança perfume , o ” primeiro convite de amor “perfumado”.
    O cheirinho do talco Jhonson parando no ar a delícia de meus sonhos maternais realizados. Minhas doces memórias!

    Responder
    • Antonio Trotta disse:
      3 dias atrás

      Linda narrativa de um tempo que se foi, e deixou lembranças marcadas até hoje na memória é no coração. Parabéns.

      Responder
      • Flávia Paiva disse:
        2 dias atrás

        A memória afetiva constrói tantas narrativas, são verdadeiramente inspiradoras. Nas mão de artistas, uma simples história vira uma obra de arte.
        Parabéns pelo texto, genial!

        Responder
  5. MARIA CRISTINA MALLET PORTO disse:
    3 dias atrás

    São muitas as lembranças, memórias que despertam saudades. Elas chegam, invadem, permeiam os momentos inesperadamente. Mas tenho sido chamada a seguir, olhar para a frente e agradecer pelas experiências. Tudo muito rápido, o tempo não pára e seguimos com ele, passo a passo!

    Responder
    • Antonio Trotta disse:
      3 dias atrás

      O que se deixa para trás são saudades de um tempo que passou. E passou muito rápido. O viver do agora é o presente, mas o passado deixa lembranças profundas.

      Responder
  6. Glória Fontoura de Siqueira disse:
    3 dias atrás

    A harmonia perfeita entre a memória e os fatos significativos da história de vida, contata poeticamente! O texto dá vida aos elementos que interagem com o imaginário e os sentimentos experenciados . Quantas vezes nossa memória afetiva está ligada a um objeto, um som, uma imagem, um cheiro, uma paisagem… Quanta lembranças guardamos de momentos especiais , que este texto traz à tona! Antônio Trotta , parabéns por mais um texto brilhante!

    Responder
    • Antonio Trotta disse:
      3 dias atrás

      Grato. Realmente, a história está cheia de lembranças, momentos inesquecíveis. Os sentidos nos ligam as nossas memórias.

      Responder
  7. Demogolet disse:
    3 dias atrás

    O tempo não para! O poeta conduz o meu pensamento de imediato para a canção homônima do Cazuza na qual diz, “se você achar que eu tô derrotado, saiba que ainda estão rolando os dados. Porque o tempo, o tempo não para.” …. “Eu vejo o futuro repetir o passado” (Collor prende o dinheiro da poupança, Castro perde o dinheiro dos aposentados) O tempo não para. Sem telefone, sem relógio, mas o TEMPO NÃO PARA!

    Responder
  8. Inês Santos disse:
    3 dias atrás

    Tic tac
    Trim trim
    Tempo
    Rebento
    Momento
    Vento
    Esquecimento…
    O rio passa, a saudade fixa!

    Responder
  9. MARIA ELIDA MACHADO disse:
    2 dias atrás

    Lindo texto! Poético! O envelhecimento das coisas…o nosso envelhecimento! Parabéns!

    Responder
  10. Maria Emilia disse:
    2 dias atrás

    Tempos maravilhosos,saudades de um tempo que não volta mais.
    Tic tac do relógio na sala da vovó, belas lembranças.
    Bolinhos de chuva,bolo assando(cheirinho bom),gratidao por relembrar,infância feliz

    Responder
  11. Adony Menezes disse:
    1 dia atrás

    Memórias que as badaladas do tempo não apaga… Elas tocam como a campainha do telefone a nossa alma… O “analógico” foi engolido pela tecnologia… O telefone, o relógio “analógico” pareciam trazer o “lógico” das coisas que nos movimentavam… Que gostoso reviver essas lembranças na sua belíssima narrativa, caro amigo Trotta! Na parede da minha casa nunca teve relógio, mas tinha o som estridente do telefone que vibrava no gancho… Hoje ouvimos o som silencioso da tecnologia, claro que ela nos beneficia, mas não tem mais essa emoção que você relata… Gratidão Vitalícia por nos lembrar que essas memórias estão vivas em tantos corações… Dizem que recordar é viver. Você nos instigou a viver intensamente cada detalhe. Eu ouvi as badaladas do relógio, e ouvi também o toque de expectativa do telefone… Muitíssimo Grata, Trotta, poeta querido!

    Responder
  12. Luciana Maria Santos disse:
    1 dia atrás

    Que texto lindo!! Muito bem representado a função dos dois de uma forma poética.
    Me transportou para a época que morávamos lá , muita saudade e principalmente reconhecer o privilégio que tive de viver nesta casa que era rica de significados, perfumes deliciosos do jardim e aromas deliciosos da cozinha e o som das badaladas do relógio e do trimmmm do telefone !!!!
    Obrigada querido sobrinho Toninho !!!!
    .

    Responder

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