Na borda de alguma piscina por aí, nesse mundão de meu Deus, sentei-me próximo a duas senhoras idosas que conversavam animadamente. Confesso que gosto disso, ouvir a conversa de estranhos e fantasiar a partir do que escuto. As duas falavam de amor. Não sei como a conversa começou, achei interessante do ponto em que peguei. Uma contava à outra sobre o grande amor de sua vida, dizia que lembra todos os dias dele, seu amor, com o qual viveu pouco mais de um ano. Não sente saudades, mas lembra dele sempre, como se estivessem juntos. Falava dos encontros que tinham, era tudo admiração, entusiasmo e tesão. Nunca moraram juntos, o dia a dia deles era sempre intenso e por períodos curtos. Nesse ponto elas seguiram falando da vida a dois. Comentaram que o convívio diário, que a paixão do início vai passando, se transformando em amizade, parceria ou só costume mesmo. A ouvinte comentou que não pensa nisso, que se casou cedo, que não teve muita escolha e nem conheceu essa paixão inicial. Que também nunca questionou nada, assumiu que a vida, especialmente das mulheres da sua geração, era assim mesmo, casar-se, ter filhos, cuidar da casa, as mais modernas ousavam trabalhar fora e pronto. Os grandes amores ficavam para seus maridos que aqui e ali tinham paixões tórridas, aquele tesão que só sentiam fora do casamento. Para a ouvinte era só isso.

Para a falante, a vida só tinha sentido se houvesse um grande amor. A conversa ficava cada vez mais interessante. Disse que todo mundo, ao chegar no céu, ou no inferno, quando indagado sobre como viveu o amor, lembrará, sem muito esforço, qual foi o seu maior amor. Esse, segundo ela, é inesquecível, só existe um, o não vivido! Para ser o grande amor, o amor maior não pode ultrapassar o limite da euforia, não pode virar cotidiano. Perguntada pela amiga se ela tinha vontade de revê-lo, respondeu que jamais! Que viveu mais de quarenta anos, muito bem vividos, com seu único marido. Está viúva, não entendi há quanto tempo. Dedica-se agora a tocar piano, está fazendo um novo curso de partitura, ajuda a filha divorciada a cuidar dos seus filhos, seus netos preenchem seu tempo. Mora sozinha e não sente falta de nada, está plena, vivendo seu envelhecimento de forma confortável. Não relembra muito seu marido, cumpriu todo o protocolo, cuidou dele na doença, que não foi longa, fez velório e enterro como ele queria, o enterrou com a camiseta do seu time do coração, o Nacional do Uruguai. Viveu o luto, chorou a perda, o tempo passou, acabou. Segue a vida em companhia do seu grande amor, o maior amor. Esse está integrado ao seu corpo e à sua alma. Não sabe se está vivo ou morto, não quer saber, não importa. Sente-se privilegiada por ter em si um grande amor, aquele em que tudo era perfeito, conversas, risadas, viagens, tesão em tudo, da cozinha à cama. Repetiu várias vezes que não sente saudade, que o que carrega em si é o que basta, o seu grande amor, que é o maior amor porque não vivido! Falava sorrindo e a sua amiga, ao final da conversa, parecia não estar entendendo mais nada. Pensava, talvez, que a essa altura da vida, entender não importa mais…Levantaram-se as duas e foram embora. Eu dei um mergulho e logo fui para a borda novamente, louca para ouvir outra conversa.














Ouvir conversas alheias, também faz parte de nossas andanças.
Eu escuto e viajo na imaginação…
Gostei! Escutar coisas do coração é bom!
Que bom que gostaste! E continua conosco aqui no Exempplar!
Uau! Que delícia de história! Um grande amor de que se lembra, mas não quer mais saber ..basta a lembrança. Penso que essa senhora é a própria evolução.
Também senti isso! Transcende o lugar comum…
A conversa foi muito interessante!! Ainda bem que ouviste para trazer para cá!
Tô sempre ligada, ouvindo conversas de estranhos! Kkkk
“Amor, meu grande amor, (sem nome ou telefone) não chegue na hora marcada.”
Que lindoooo…inspirações!
Talvez seja isso o que carregamos para o outro lado, se é que existe…
Se existem…o maior amor e o outro lado! Muitas dúvidas, não é?
Coisas do coração!! legal. Lica
São muitas as histórias vindas do coração!
Muito lindo. Daria um tratado filosófico. Mas é bem melhor só curtir. O tempo urge.
Obrigada por curtir!
Muito bem escrito…Parabéns!
Obrigada amigo querido!
O amor sempre existe em nós…a questão é como sentimos e alimentamos ele.
Uma ótima conversa.
Parabéns!!!
Obrigada! E siga conosco aqui no Exempplar!
O grande amor da jornada é guardado no fundo furado da mochila que carregamos
Está lá, faz parte de nós…pelo menos esse foi o papo das amigas na piscina!
Quem não gostaria de viver um grande e verdadeiro amor de vida. Uma boa história de vida e vivência de um amor que transcende o material e fica na memória para sempre.suspiro…….
Boas histórias tocam a todos! E de amor…mais ainda!
Muito bom ouvir histórias de amor!
Muito bom! Eu adorei ouvir essa conversa…
Também gosto de ouvir histórias alheias. É interessante conhecer as maneiras diversas com que as pessoas constroem o sentido para suas vidas.
Que bom que gostaste! Eu adoro viajar na imaginação a partir das histórias que escuto!
Amor intenso, aquele que não foi vivido na juventude e vive na imaginação. Persiste na memória e nos sonhos e basta-se com a própria existência.
Eu achei linda a história! E a emoção da conversa! Obrigada pelo poético comentário.
Bha! Vou me cuidar em minhas conversas quando estiveres por perto! kkkkkkkkkkkk
(mas uma delicia ouvir a dos outros)
(e também ler tuas crônicas)
Fica ligado! Eu ando por aí ouvindo conversas e contando…kkkkk