A estrada passa devagar pela minha janela. Estamos numa época de estiagem, o campo está seco, a pastagem escassa, algum gado magro aqui e ali. Ao longe, dispersas, pequenas casas torrando ao sol. A estrada é estreita, sem acostamento, mas a pavimentação está conservada, o que faz a paisagem passar plana, constante, sem solavancos. Minha casinha sobre rodas desliza suavemente fazendo com que meus pensamentos também deslizem e cheguem, calmamente, onde encontro aquela mulher. Viajo no tempo. Ela está lá, na sua pequena casa, fincada em algum rincão no meio do campo com seus sete filhos, todos homens. O marido, trabalhando nas fazendas ao redor, fica longos períodos fora de casa. Quando volta das empreitadas, traz o dinheiro suficiente para fazer compras na cidade, que é longe, transporte só de carreta de bois. Em cada retorno, há um tempo para conversar, o chefe da família recebe as demandas dela com os filhos, provavelmente ouve queixas daquela mulher sozinha. É hora de dividir com ele a organização de tudo, o único suporte que tem. É hora também do amor ou de algo chamado assim. Talvez um sexo sem graça, onde ele se alivia e ela cumpre seu compromisso de esposa, abrindo as pernas, deixando-se penetrar, e só. A paisagem passando e eu viajando em meus pensamentos. Acho que era assim a vida amorosa daquela mulher. Ela o tinha como seu dono, seu patrão, seu chefe. Ele ia e voltava. Uma vez foi e não voltou.

Aquela mulher ficou só, com seus sete filhos pequenos, sem chão, sem dono, sem rumo. Ele deve ter encontrado outros encantos lá onde estava, diferente dela, cujos encantos era somente sobreviver e criar filhos, ou seja, uma vida quase sem encantos. Penso como aquela mulher teria suportado esse momento. A estrada leve, o ar-condicionado da minha casinha andante me dá o conforto necessário para pensar longe, para viajar para a vida daquela mulher. Percebo uma lacuna nas minhas lembranças, não sei como se arranjou logo após ser abandonada. Agora a vejo em crises de agressividade, não fala coisa com coisa, ela grita e xinga, precisa ser contida pelos filhos. Talvez queira expulsar os seus demônios, as dificuldades da sua vida. Talvez esteja querendo agredir, machucar o mundo que sempre lhe fora tão cruel, está ocupada do seu acerto com a vida, não tem mais condições de cuidar os seus sete filhos sozinha. Já estão crescidos, ela já os criou no meio do nada, dando-lhes para comer o que plantou, criando as galinhas que os alimentaram com os seus ovos e precisaram ser sacrificadas em dias de festa, quando o prato era uma galinhada. De sobremesa, doces em calda que ela fazia com as frutas do seu pomar, os meninos brigavam pelo doce de figo, era o melhor. A mulher passou a incomodar os poucos parentes que se aproximaram, certamente acionados pelos filhos mais velhos como pedido de socorro. A única alternativa, na época, era interná-la como louca, em um hospício da capital. Depósito de loucos. Choques elétricos parece que era a única terapia que fazia. E assim foi, idas e vindas, internações repetidas, sequelas neurológicas aparecendo, idade avançando. Os filhos espalhados pelas casas de parentes, já estavam criados, dali seguiram construindo suas vidas, cada um do seu jeito. Geraram e cuidaram das suas famílias, bons homens, rudes e sensíveis ao mesmo tempo, muito amigos uns dos outros. Dividiram o cuidado com a mãe no fim da sua vida. Em algum momento voltaram ao convívio com o pai, o cuidaram também na velhice. Pessoas amorosas, um amor construído no meio do nada por aquela mulher sozinha, abandonada, a louca!














