
– Com licença. A senhora é a professora particular de Língua Portuguesa?
– Sou. No que posso ajudá-lo?
– Minha dúvida é se procuro uma professora de Português ou um médico?
– Desculpe-me, mas não entendi! O senhor está em dúvida entre um médico e um professor de Português?
– Sabe o que é? Abandonei a escola, pois tenho problemas com as letras. Creio ter uma grave doença gramatical, daí a minha dúvida e meu abandono.
– Sei. E quais são os ‘sintomas’ que o afligem na Língua Portuguesa?
– Nossa! A senhora é boa mesmo. Já de cara acertou em cheio. A senhora disse af_igem. Não sei se é com ‘l’ ou com ‘r’.
– Nesse caso, com ‘l’, no sentido de pena, castigo, tormenta… entendeu?
– Pois é. Eu não sei diferenciar as palavras que são semelhantes na grafia e na pronúncia. Piora quando elas têm a mesma pronúncia e a mesma grafia. Quando sei o significado, não sei qual letra coloco, e se troco, aí o sentido é outro. Isso causa em mim uma grande confusão gramatical e mental.
– Entendo. Diga-me: o que é mais eminente para o senhor neste momento?
– Desculpe, mas não seria iminente?
– Claro que não! Eminente significa importante, principal, enquanto que iminente é o que está para ocorrer.
– É exatamente isto. Não sei mais a quem recorrer. Já até virei motivo de piada. As pessoas chegam perto de mim e começam a me confundir ainda mais. Outro dia, alguém pediu a Câm_ra (a/e) para tirar foto da Câm_ra (a/e) Municipal.
– É, no seu caso, é bastante flagrante…
– A senhora poderia soletrar? Ou apenas dizer se é com ‘l’ ou com ‘r’?
– Meu senhor. Com ‘r’ torna-se fragrante e vem de fragrância, perfume.
– Veja. Misturo tudo, por isso sofro. E se sofro, devo procurar um médico ou uma professora? Devo curar o meu ma_(l/u) pela causa ou pela consequência?
– Calma! Pelo que percebo, o senhor não consegue diferir uma palavra da outra.
– …?
– Oh! Desculpe-me. O senhor pode confundir com deferir, que é aceitar, conceder. Estou me referindo a di-fe-ren-ciar uma palavra da outra.
– Exatamente. Creio que o diagnóstico, digo, a análise está correta. Já está começando a r_tificar (e/a) o meu problema.
– Há quanto tempo o senhor não consegue discriminar uma palavra da outra?
– Eu d_scrimino (i/e) essa confusão desde sempre. Eu sempre tenho que recr_ar (e/i) minhas frases. Isso é doença?
– O senhor apenas infringe – com ‘r’ – as convenções ortográficas e os conceitos do padrão culto da língua. O que o senhor precisa é infligir – agora com ‘l’ –, aplicando as palavras e seus sentidos corretamente.
– Eu confundo tráfego com tráfico, mandado com mandato, aprender com apreender, auto com alto, calção com caução, calda com cauda, comprimento com cumprimento, descrição com discrição, descriminar com discriminar, despensa com dispensa, eludir com iludir, emergir com imergir, emigrar com imigrar… Eu nem sei dizer se isto que acontece comigo é um incidente ou um acidente. Olha só: já estou começando a s_ar (o/u) frio!
– Relaxe um pouco. O senhor vai acabar tendo um treco, um troço… Calma!
– Outro dia escrevi acento com ‘c’.
– Mas acentuar é com ‘c’ mesmo.
– Só que estava me referindo ao lugar para sentar-se.
– Ah! Assento. Sei. Às vezes, a gente quer apressar a escrita…
– Desculpe-me! apre__ar com ‘ss’ ou com ‘ç’?
– Qual o senhor escolheria?
– Eu penso no ‘ç’, mas me vem os ‘ss’; então, eu penso nos cifrões e imagino o símbolo monetário ‘$’… E a confusão está arranjada.
– Por que o senhor não usa o bom senso?
– Com ‘s’ ou com ‘c’?
– Como assim? Basta espiar como se escreve cada palavra.
– Com ‘s’ ou com ‘x’?
– E desde quando tem ‘x’ em censo ou senso?
– A senhora agora não me acompanhou. Estou falando em e_piar (s/x)?
– Nossa! Isso parece não ter mais conserto.
– Outro dia um amigo para zoar comigo disse. “Vou levar o meu violino no con_erto (s/c), pois, à noite, vamos dar um con_erto (s/c) no teatro. Sofri o dia inteiro por causa de duas míseras le-tri-nhas fora de ordem.
– Interessante!
– Será que posso chamar isso de distúrbio linguístico?
– Há tratamento, mas é permanente. Tive muitos alunos, não nesse estágio avançado, mas se isso continuar pode virar literalmente uma ‘epidemia’.
– Graças a Deus! Então tem cura?!
– Têm vários ‘procedimentos’. O senhor pode começar por frequentar uma escola, tirar suas dúvidas de Português e estudar muito, principalmente quando o assunto for ortografia.
– E de qual ma_ (l/u) sofro?
– Bem. Segundo o meu ‘diagnóstico’, o senhor sofre de Parônimos e Homônimos.
Antonio Trotta – Jornalista, escritor e poeta
@atrottamg













