Chegamos com nossa casinha rodante a Santa Luzia, uma pequena cidade do interior do Maranhão, sob um sol de queimar os miolos, e lá ouvimos histórias de um lobisomem. Histórias bizarras, curiosidades, lendas do interior sempre me atraem, gosto de ouvi-las. Na praça, no centro da cidade, um morador nos informou que o lobisomem de Santa Luzia ficou famoso por lá, que a história teria sido divulgada na televisão mais de uma vez. Claro que fui saber melhor dessa história com o âncora do programa que fez as reportagens sobre o tal lobisomem. Havia uma retransmissora da TV Record na cidade, estávamos muito perto dos estúdios, onde fomos bater perto do meio-dia.
Estacionamos o Motorhome em frente, local sem nenhuma possibilidade de sombra. O suor banhava meu corpo e, para me refrescar um pouco, antes de tocar a campainha do prédio da TV, joguei uma água no corpo, ali mesmo, na rua, usando o chuveirinho externo da casinha. É comum este acessório em motorhomes, a gente o utiliza para lavar os pés ao chegar da praia ou as botas após caminhar na lama. Naquele momento, o chuveirinho aplacou o meu calor, joguei água no corpo, por cima da roupa mesmo. Eu vestia um vestido leve, com ele eu havia dormido, usando-o como camisola. O sol, mesmo forte, não deu conta de secar totalmente o tecido colado ao meu corpo, enquanto esperávamos na calçada para sermos atendidos.
Logo fomos recebidos pelo responsável pela TV local, um personagem muito conhecido em Santa Luzia, mais conhecido até do que o lobisomem. Veio ele, super falante, muito simpático, já tinha sido informado do nosso interesse, de pronto falou sobre os detalhes da aparição do tal bicho que, por determinado período, assustou moradores e matou animais domésticos na periferia da cidade.
Nós estávamos interessados no lobisomem e ele mais interessado na nossa vida nômade. Logo começou a perguntar sobre a nossa opção por viver o envelhecimento na estrada, enquanto nos puxava pelo braço, para entrar ao vivo, no seu programa do meio-dia, na TV. Queria que contássemos nossa história para os seus telespectadores, afinal, era raro o povo conviver com motorhomers por lá, visto que Santa Luzia não faz parte dos roteiros turísticos tradicionais.
Enquanto era levada para o estúdio, eu sentia meu vestido, ainda úmido, colando nas minhas pernas, lembrava que havia dormido com ele, que não tinha passado o protetor solar colorido, que disfarça as manchas do meu rosto, só havia passado o batom da manhã, este não esqueço nunca. Posso andar de camisola molhada pela rua, mas sem batom, nunca!
Assim, do jeito que estávamos, entramos no ar, ao vivo, não havendo tempo de nenhum preparativo, a vinheta do programa já estava aparecendo no monitor. Meu marido ainda suado, vestia uma camiseta velha, que usara há pouco, consertando alguma coisa na casinha, e crocs empoeirados, o que observei de canto de olho. Eu, com vestido, calcinha e tênis ainda úmidos do banho de ducha que havia tomada há pouco, ali mesmo na calçada.
Eu ria “por dentro”, como dizia Jô Soares, nem um pouco preocupada com a nossa estampa. Nunca tive muita preocupação com isso, depois de passar a viver na estrada, então, até me divirto com essas situações. Em Santa Luzia do Maranhão, ouvimos as histórias do lobisomem e a população da região acompanhou algumas histórias da nossa vida nômade.
Enquanto falávamos para as câmeras, o ar-condicionado do estúdio e o papo animado com o âncora do programa nos deram o conforto que precisávamos para sorrir e fazer pose na TV.












