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Home Colunas Vida Viajante

A VIDA PASSA PELA JANELA

DE MARIA ÉLIDA MACHADO

Domingos Antunes Guimarães por Domingos Antunes Guimarães
6 de julho de 2026
em Vida Viajante
26
A VIDA PASSA PELA JANELA

A estrada é estreita e esburacada. O carro balança, a casinha no motorhome treme, os utensílios se desacomodam. Logo adiante, numa rotatória grande, acessamos uma estrada mais larga, os solavancos cessam. Aqui o asfalto foi consertado, há marcas, porém, poucos desníveis, podemos até ouvir o barulho do motor do carro. Estamos no anel rodoviário de uma grande cidade, vejo divulgação dos atrativos turísticos da região, muita indústria de alimentos, agrotóxicos, fertilizantes, ração animal, parece tudo relativo à agropecuária por aqui. A estrada ampla, duplicada, facilita o tráfego da produção agrícola e, por certo, as viagens dos fazendeiros e empresários locais. Pela janela passam chaminés, áreas imensas que, talvez, tenham sido desmatadas pois, por aqui, vejo pouca vegetação.
Precisamos passar por algumas cidades pequenas para chegarmos ao nosso destino de hoje. É sempre assim, alternamos amplas e estreitas estradas, grandes e pequenas cidades. Tudo passa pela janela. Novamente uma estrada estreita, pista simples, pouco movimento. Agora vejo mais verde, mata atlântica, pó vermelho levantando-se à beira da estrada. É a época de seca por aqui. Observo, agora, pequenas propriedades, casas simples ao longe, pequenos caminhos de terra para levar até elas. Algumas pessoas caminham pelo acostamento da estrada, passam juntinho à minha janela, parecem pobres, roupas simples, calçados inadequados para caminhar, muitas vezes, chinelos. Entre uma pequena propriedade e outra, muitos quilômetros devem ser percorridos a pé. Às vezes, há crianças também. Penso para onde estariam indo. Os homens, sozinhos, talvez estejam no trajeto entre um serviço e outro, no campo. Sinto que o sol está escaldante, eu, diferente deles, posso me refrescar, ligando o ar-condicionado do carro. Sem internet, estamos em silêncio. Aquelas pessoas que passam lá fora têm muito chão para caminhar, entre uma sombra e outra. Observo as tendas pela estrada, venda de frutas, produtos locais como mel, pão ou doces. As tendas são precárias, umas de lona, com anúncios mal escritos, ao longo da rodovia. De vez em quando uma tenda maior, cheia de atrativos. Nessas tendas grandes, acho tudo caro, não vejo encanto nelas.
Prefiro parar nas tendinhas, atendendo ao apelo do vendedor, à beira da estrada, que mostra seus produtos aos viajantes. Abro a janela novamente, sinto o vento quente e a poeira vermelha, fininha, que penetra quase na alma! Avisto uma pequena casa, solitária, próxima à estrada. Roupas no varal, galinhas soltas e cachorrada latindo. Uma mulher mexe em umas latas no chão com uma das mãos, pois a outra segura ao colo um bebê de alguns meses. Outras duas crianças correm por perto. Lembro da minha infância, quando a brincadeira era ao redor da casa com minha mãe por perto e com os brinquedos que havia no pátio. Recordo agora que, nas minhas brincadeiras, não havia nada de plástico, nada comprado em loja, nada colorido. Minha família não era miserável, mas era pobre e os brinquedos eram feitos por nós mesmos, no pátio. É como vejo aquela morada que passa pela minha janela. Apesar da vegetação ao redor, há muita poeira, parecendo tudo meio beje, meio sem cor.
Ao olhar do carro, as imagens andam devagar, como parece ser o tempo nesse lugar. É preciso dirigir devagar, a entrada da cidadezinha é cheia de quebra-molas. Como na vida, às vezes, precisamos correr, por ser essa nossa única opção. Outras vezes precisamos ir mais devagar, com cuidado, pois os percalços, como os quebra-molas, danificam as nossas estruturas. Enquanto penso, observo a vida lá fora. Agora, é o centro da cidade que passa pela minha janela. Vejo o comercio, um banco, umas lojinhas de bugigangas, mercado, ferragem, igreja evangélicas, mais de uma, de nomes diferentes. Enxergo uma capela mais acima, numa colina, com uma enorme cruz à frente. Há casas com varanda na rua principal. Há pessoas sentadas em cadeiras de plástico, na calçada. Muitos idosos olhando curiosos para nós. Cumprimentamos, todos respondem, alguns fazem reverência com o chapéu. As crianças, encaloradas, algumas ranhentas, acenam e sorriem. Crianças são sempre receptivas, especialmente em lugarejos. Vejo muitos cachorros soltos nas ruas, o que, na cidade grande, seria vira-lata, cachorro de rua. Não creio que seja assim neste lugar. Acho que os cachorros têm dono, têm casa e, assim como as crianças, brincam soltos pela rua. É final de tarde, fim de expediente, algumas pessoas estão reunidas em uma esquina, portam sacolas de supermercado. Deve ser gente que trabalhou o dia inteiro e, agora, aguarda o ônibus que a levará para casa. Levam o que o dinheiro deu para comprar e o que os braços cansados conseguem carregar. O trajeto deve ser curto, aqui tudo parece ser perto. Tudo simples e silencioso. Talvez eu fique mais por aqui, quem sabe aqui minha vida passe mais devagar…

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Comentados 26

  1. GILBERTO JOAQUIM PAIXAO disse:
    4 meses atrás

    Está é a beleza de nossas viagens pelo interior, pessoas simples e acolhedoras, muito bom vivenciar e morar por uns dias por ali.

    Responder
    • Maria Élida Machado disse:
      4 meses atrás

      Prefiro as cidades pequenas, desconhecidas, descobrir a cultura local é uma delícia!

      Responder
      • MARA NUBIA SILVA disse:
        3 meses atrás

        Que texto gostoso.
        Me trouxe memórias muito agradáveis.
        Obrigada e continua escrevendo.
        Parabéns !

        Responder
        • Maria Élida Machado disse:
          3 meses atrás

          Obrigada! E continua aqui conosco no Exempplar!

          Responder
    • Thiago Almeida Teixeira disse:
      4 meses atrás

      Aquela viagem pelo interior que fica marcado nas simples coisas e o acolhimento e único.

      Responder
      • Maria Élida Machado disse:
        4 meses atrás

        Adoroooooo…e registro!

        Responder
  2. Maicon Pintes disse:
    4 meses atrás

    Uma bela narrativa sobre o andar viajante. Parabéns!

    Responder
    • Maria Élida Machado disse:
      4 meses atrás

      Que bom que gostaste! E continua conosco aqui também no Exempplar!

      Responder
  3. Antonio Trotta disse:
    4 meses atrás

    A vuda tem solavancos inesperados e nos faz refletir tantas coisas. Será que só as panelas, os utensílios saem do lugar? A vida passa pela estrada que passamos. Observamos os outros e nos vemos neles, tudo é estranho e comum. Quanto a compartilhar? Siga em frente e pare quanto necessário. Boa viagem

    Responder
    • Maria Élida Machado disse:
      4 meses atrás

      E vamojuntooooo…obrigada pelo delicado comentário!

      Responder
  4. Teresinha Basso Mainardi disse:
    4 meses atrás

    E tem muitas cidades pequenas , eu nasci em uma delas e tenho um grande amor por ela,
    Entendo tua preferência pois é mais fácil emtendê-las com suas características e peculiaridades do que em uma cidade grande.

    Responder
    • Maria Élida Machado disse:
      4 meses atrás

      São encantadoras as pequenas cidades!

      Responder
  5. Laura Lisboa de Magalhães Cantuária disse:
    4 meses atrás

    Cada trecho de estrada tem suas peculiaridades e as cidades então, são sempre únicas. Com certeza, algumas nos convidam a ficar mais.

    Responder
    • Maria Élida Machado disse:
      4 meses atrás

      Sei que me entendes…és parceira da vida na estrada!

      Responder
  6. JOSÉ CLAUDIO DOS SANTOS ARAUJO disse:
    4 meses atrás

    Me senti na ” própria viagem”…

    Responder
    • Maria Élida Machado disse:
      4 meses atrás

      Vamboraaaaa juntos, então! Que bom que gostaste!

      Responder
  7. Lia Mara disse:
    4 meses atrás

    Adoro estar na estrada… Lembrei de quantas vezes fico olhando pela janela nas viagens e imaginando as histórias que passam diante dos meus olhos. Aquela pessoa caminhando na beira da estrada, ou os vendedores ambulantes que aparecem no meio do nada com suas mercadorias… fico pensando: de onde vêm, para onde vão, será que conseguem vender? A estrada mostra paisagens, mas também mostra vidas e histórias que a gente nem conhece.

    Responder
    • Maria Élida Machado disse:
      4 meses atrás

      É o que ando fazendo por aí…observando e registrando as emoções que me provocam as vidas que passam pela minha janela…

      Responder
  8. Almerinda Chagas Pereira disse:
    4 meses atrás

    Isto que é interagir com o mundo,com a vida…
    Parabéns sejam felizes.

    Responder
    • Maria Élida Machado disse:
      4 meses atrás

      Obrigada e vamojuntooooo…

      Responder
  9. LUIZ AFONSO ALENCASTRE ESCOSTEGUY disse:
    4 meses atrás

    Viajei muito pelo interior do nosso RS. De pequenas a grandes cidades. E, sem dúvida, as pequenas guardam um ar diferente no modo como a vida é levada.

    Responder
    • Maria Élida Machado disse:
      4 meses atrás

      Todos os lugares têm seus encantos…É preciso estar disponível para perceber…

      Responder
  10. Cid do Nascimento Silva disse:
    4 meses atrás

    Amiga Maria Élida, que delícia de conto…. Aliás, conto contigo para nos levar, a sua família e a minha, numa próxima viagem. Parei o que estava fazendo e, por alguns minutos, fiquei admirando a paisagem descrita por você.
    É verdade… após me envolver nesta janela do motorhome, observei a vida passando como que em câmera lenta… a respiração mais tranquila, os olhos filmando as pessoas, os cenários e as habitações e, sua perspicácia de escritora, absorvendo os pensamentos dos que lá seguiam pelos caminhos…
    Amiga Maria Élida, que delícia de conto… Parabéns…. amanhã, viajarei em outros contos adoráveis….

    Aliás, parabéns também pela qualidade de tudo… a apresentação dos textos, a qualidade da escrita nesta nossa língua tão rica, as fotos, e os seus registros…. Parabéns….

    Responder
    • Maria Élida Machado disse:
      3 meses atrás

      Muito obrigada Cid! Muito bom tê-lo conosco aqui no Exempplar. E vamojuntooooo…

      Responder
  11. zaira cantarelli disse:
    4 meses atrás

    No advento da maturidade, adoro conhecer cidades q fogem do eixo costumeiro do turismo. Nestes lugares busco silêncio, clima tranquilo, paisagens calmas e forte conexão com a natureza é q me atraem a viajar sem pressa. Procuro curtir os moradores, donos de uma rotina + leve, conhecer e descobrr a cultura local, a gastronomia, usos e costumes, tradição… A gente se sente acolhida e é sempre um convite à presença.

    Responder
    • Maria Élida Machado disse:
      4 meses atrás

      No envelhecimento a gente se permite mais contemplação…É muito bom. Obrigada pelo sensível comentário!

      Responder

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