A estrada é estreita e esburacada. O carro balança, a casinha no motorhome treme, os utensílios se desacomodam. Logo adiante, numa rotatória grande, acessamos uma estrada mais larga, os solavancos cessam. Aqui o asfalto foi consertado, há marcas, porém, poucos desníveis, podemos até ouvir o barulho do motor do carro. Estamos no anel rodoviário de uma grande cidade, vejo divulgação dos atrativos turísticos da região, muita indústria de alimentos, agrotóxicos, fertilizantes, ração animal, parece tudo relativo à agropecuária por aqui. A estrada ampla, duplicada, facilita o tráfego da produção agrícola e, por certo, as viagens dos fazendeiros e empresários locais. Pela janela passam chaminés, áreas imensas que, talvez, tenham sido desmatadas pois, por aqui, vejo pouca vegetação.
Precisamos passar por algumas cidades pequenas para chegarmos ao nosso destino de hoje. É sempre assim, alternamos amplas e estreitas estradas, grandes e pequenas cidades. Tudo passa pela janela. Novamente uma estrada estreita, pista simples, pouco movimento. Agora vejo mais verde, mata atlântica, pó vermelho levantando-se à beira da estrada. É a época de seca por aqui. Observo, agora, pequenas propriedades, casas simples ao longe, pequenos caminhos de terra para levar até elas. Algumas pessoas caminham pelo acostamento da estrada, passam juntinho à minha janela, parecem pobres, roupas simples, calçados inadequados para caminhar, muitas vezes, chinelos. Entre uma pequena propriedade e outra, muitos quilômetros devem ser percorridos a pé. Às vezes, há crianças também. Penso para onde estariam indo. Os homens, sozinhos, talvez estejam no trajeto entre um serviço e outro, no campo. Sinto que o sol está escaldante, eu, diferente deles, posso me refrescar, ligando o ar-condicionado do carro. Sem internet, estamos em silêncio. Aquelas pessoas que passam lá fora têm muito chão para caminhar, entre uma sombra e outra. Observo as tendas pela estrada, venda de frutas, produtos locais como mel, pão ou doces. As tendas são precárias, umas de lona, com anúncios mal escritos, ao longo da rodovia. De vez em quando uma tenda maior, cheia de atrativos. Nessas tendas grandes, acho tudo caro, não vejo encanto nelas.
Prefiro parar nas tendinhas, atendendo ao apelo do vendedor, à beira da estrada, que mostra seus produtos aos viajantes. Abro a janela novamente, sinto o vento quente e a poeira vermelha, fininha, que penetra quase na alma! Avisto uma pequena casa, solitária, próxima à estrada. Roupas no varal, galinhas soltas e cachorrada latindo. Uma mulher mexe em umas latas no chão com uma das mãos, pois a outra segura ao colo um bebê de alguns meses. Outras duas crianças correm por perto. Lembro da minha infância, quando a brincadeira era ao redor da casa com minha mãe por perto e com os brinquedos que havia no pátio. Recordo agora que, nas minhas brincadeiras, não havia nada de plástico, nada comprado em loja, nada colorido. Minha família não era miserável, mas era pobre e os brinquedos eram feitos por nós mesmos, no pátio. É como vejo aquela morada que passa pela minha janela. Apesar da vegetação ao redor, há muita poeira, parecendo tudo meio beje, meio sem cor.
Ao olhar do carro, as imagens andam devagar, como parece ser o tempo nesse lugar. É preciso dirigir devagar, a entrada da cidadezinha é cheia de quebra-molas. Como na vida, às vezes, precisamos correr, por ser essa nossa única opção. Outras vezes precisamos ir mais devagar, com cuidado, pois os percalços, como os quebra-molas, danificam as nossas estruturas. Enquanto penso, observo a vida lá fora. Agora, é o centro da cidade que passa pela minha janela. Vejo o comercio, um banco, umas lojinhas de bugigangas, mercado, ferragem, igreja evangélicas, mais de uma, de nomes diferentes. Enxergo uma capela mais acima, numa colina, com uma enorme cruz à frente. Há casas com varanda na rua principal. Há pessoas sentadas em cadeiras de plástico, na calçada. Muitos idosos olhando curiosos para nós. Cumprimentamos, todos respondem, alguns fazem reverência com o chapéu. As crianças, encaloradas, algumas ranhentas, acenam e sorriem. Crianças são sempre receptivas, especialmente em lugarejos. Vejo muitos cachorros soltos nas ruas, o que, na cidade grande, seria vira-lata, cachorro de rua. Não creio que seja assim neste lugar. Acho que os cachorros têm dono, têm casa e, assim como as crianças, brincam soltos pela rua. É final de tarde, fim de expediente, algumas pessoas estão reunidas em uma esquina, portam sacolas de supermercado. Deve ser gente que trabalhou o dia inteiro e, agora, aguarda o ônibus que a levará para casa. Levam o que o dinheiro deu para comprar e o que os braços cansados conseguem carregar. O trajeto deve ser curto, aqui tudo parece ser perto. Tudo simples e silencioso. Talvez eu fique mais por aqui, quem sabe aqui minha vida passe mais devagar…














Está é a beleza de nossas viagens pelo interior, pessoas simples e acolhedoras, muito bom vivenciar e morar por uns dias por ali.