O dia estava lindo, ainda era metade da manhã e o sol já ardia sobre a minha cabeça. Lindo dia de sol e mar, lindo dia para fazer nada na praia. Minha casinha andante estava perto, era possível vê-la, à sombra, numa confortável morada. Logo ao chegar na areia, ele veio ao meu encontro, oferecendo cadeira para alugar, muito cara, como tudo que a gente consome, `beira mar, na cidade mais turística do Brasil, conhecida no mundo todo por suas paisagens deslumbrantes que combinam mar e montanha, asfalto e favela. O cara me convenceu a ocupar um lugar no complexo da sua barraca. Sentei-me, relaxei, e me vi admirando aquele cara simpático, de papo fácil, abordando todo mundo, sorriso aberto congelado no rosto. Seu tipo era um pouco diferente dos demais barraqueiros daquela praia, era louro, olhos claros, cabelo comprido, meio palha. Parecia surfista, parecia estar em casa à beira mar. Devia ter uns 30 anos, corpo malhado, cabelos louros e pele queimada, daquela cor típica dos pescadores que, como ele, vivem sob o sol, não parecia usar protetor.

Usava uma bermuda florida, surrada, e nada mais. Corria pra e pra cá, conversava com todos os clientes, gritava em códigos com sua parceira de barraca. Ela preparava os petiscos, gerenciava as bebidas, a água de coco, os sucos. Ele era o metri, o garçom, o relações públicas do negócio. Parece que fazia bem o serviço. Às vezes eu podia ouvir a conversa dele com os clientes, na maioria das vezes, o assunto era sobre futebol, o jogo do dia, a sacanagem com quem perdeu, típico do ambiente de praia. O cara da barraca ia e vinha, não se sentou em nenhum momento enquanto eu estive lá. Umas duas ou três vezes deu um mergulho para se refrescar. Ao entrar no mar, corria para a onda que o esperava. Corria, mergulhava de primeira, surgia lá adiante, refrescado na água gelada, passava a mão nos cabelos, que, agora molhados, pareciam mais escuros. A cada corrida para o mar, dizia uma besteira para os clientes. Na ida comentava sobre o calor escaldante, na volta, sorrindo, falava da delícia da água. Eu não conseguia tirar os olhos do cara da barraca, pela sua beleza rústica e pelo seu vaivém na areia, que me fazia pensar sobre como seria a sua vida. Teria escolhido viver ali, à beira mar, vendendo bebida e petiscos, ou teria sido uma não-escolha? Talvez tivesse estudado, se formado em alguma área onde não encontrou emprego ou talvez sua ocupação não lhe tenha possibilitado viver à beira mar, mergulhando de vez em quando, como fazia agora. Talvez tenha abandonado os estudos, por necessidade, tendo que trabalhar para ajudar os pais nas despesas da casa. Talvez tenha começado fazendo, aos fins de semana, um trabalho extra, gostou de estar ali, e ali ficou. Ou nada disso, poderia ser um surfista desde a adolescência, que não gostava da escola, só queria surfar e curtir seu baseado ao pôr do sol. Eu voltei várias vezes àquele lugar e, a qualquer hora, em qualquer dia, o cara da barraca estava lá, lindo, com seu cabelo palha, corpo esculpido no mar e pintado pelo sol. Sempre disposto, rosto iluminado pelos olhos azuis e pelo seu sorriso largo. Nunca tive vontade de falar mais com aquele cara da barraca, não tive curiosidade em saber sobre sua vida além daquela praia. Bastava ficar olhando seu vaivém entre os clientes e seus mergulhos quando a areia lhe queimava os pés.













