São Paulo, 19 de março de 2026 – Um estudo conduzido por pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e do Hospital das Clínicas da FMUSP (HCFMUSP) lança nova luz sobre as complicações sistêmicas da Síndrome do Desconforto Respiratório Agudo (SDRA), uma das principais causas de internação em UTIs. A pesquisa mostra que 49,9% dos pacientes com o quadro desenvolvem Injúria Renal Aguda (IRA), uma condição caracterizada pela perda súbita da capacidade dos rins de filtrar resíduos e líquidos do sangue, o que pode levar à falência renal. A complicação está associada a um aumento significativo do risco de morte.
Publicado no Journal of Critical Care, o trabalho evidencia que pulmões e rins estão interligados em situações críticas. A inflamação pulmonar intensa e o uso de ventilação mecânica podem desencadear, em poucos dias, comprometimento da função renal, configurando um ciclo clínico de alto risco que exige monitoramento rigoroso na UTI.
A pesquisa foi coordenada pelo Prof. Dr. Carlos Carvalho, titular da Disciplina de Pneumologia, e pelo Prof. Dr. Emmanuel A. Burdmann, docente da Disciplina de Nefrologia. Ambos são pesquisadores do Projeto Temático Pós-COVID-19 da FMUSP, financiado pela FAPESP, pelo Instituto Todos pela Saúde (ITpS), por uma doação anônima e pelo crowdfunding #HCCOMVIDA, os dois últimos viabilizados pela Fundação Faculdade de Medicina. Entre os autores estão Francisco Z. Mattedi, que assina como primeiro autor do estudo, e demais pesquisadores do grupo.
EFEITO DOMINÓ ENTRE PULMÃO E RIM AGRAVA QUADRO CLÍNICO
O estudo evidencia que pulmão e rim não falham de maneira isolada. Esse mecanismo, conhecido cientificamente como “conversa cruzada” (do inglês, crosstalk), cria um ciclo perigoso que pode elevar em até 11 vezes o risco de o paciente desenvolver lesão renal enquanto está sob ventilação mecânica.
Para mapear essa interação, os pesquisadores revisaram 2.943 estudos internacionais publicados até janeiro de 2024. Após triagem rigorosa, 28 trabalhos foram incluídos na síntese final.
Outro dado que chama atenção é a rapidez da complicação: a lesão renal costuma surgir, em média, dois dias após o diagnóstico da SDRA. Em cinco dos estudos analisados, a IRA foi identificada como fator independente associado ao óbito.
COVID-19 AMPLIOU GRAVIDADE E IMPULSIONOU PESQUISAS
Em pacientes com SDRA causada pela COVID-19, a taxa de falência renal atingiu 52,6%. O estudo integra o Projeto Temático Pós-COVID-19 da FMUSP, que investiga as consequências de longo prazo da doença em pacientes atendidos no Hospital das Clínicas durante a crise sanitária, e a falência renal foi uma das complicações extrapulmonares mais comuns e letais observadas.
Apesar da alta frequência, a ciência ainda sabe pouco sobre o futuro dos sobreviventes. Apenas três dos estudos analisaram a recuperação da função renal, e nenhum avaliou o impacto a longo prazo, como o risco de progressão para doença renal crônica após a alta.
“O crosstalk pulmão-rim ainda é pouco compreendido. Estudos adicionais devem ser conduzidos para caracterizar com precisão o impacto da SDRA no desenvolvimento subsequente de IRA, na progressão para doença renal crônica e na necessidade de hemodiálise”, conclui Francisco Z. Mattedi, primeiro autor do artigo e doutorando da FMUSP.
O estudo completo está disponível no Journal of Critical Care (clique aqui)*.
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