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Home Destaques

ENCOSTA APAVORANTE

DE MARIA ÉLIDA MACHADO

Domingos Antunes Guimarães por Domingos Antunes Guimarães
17 de fevereiro de 2026
em Destaques, Vida Viajante
24
ENCOSTA APAVORANTE

O nosso brasilzão de meu deus é muito grande, diverso na sua cultura, nas suas belezas, na sua história e na sua geografia. As estradas por onde passamos, que são parte do nosso jardim, são muito distintas umas das outras. Em um dia andamos por largas e extensas rodovias, tráfego intenso e logo, no outro dia, já estamos em uma estrada vicinal, estreita, muitas vezes sem acostamento ou sinalização. Às vezes planas, às vezes uma serra em caracol. Essas, especialmente me apavoram. Elas estão em todos os estados do Brasil. Em alguns lugares, a serra é isolada, é preciso cruzar uma montanha vez ou outra. Em outros locais, a serra é uma constante, estamos subindo ou descendo o tempo todo, hora após hora. Nesses locais, olho ao redor e vejo, de um lado, um paredão e, do outro, uma pirambeira. Do lado do paredão fico mais tranquila quando vejo muitas árvores, entrelaçadas, com enormes raízes, formando um verde espesso. Parece que essa encosta está mais firme. Logo adiante, a encosta está desnuda, vejo terra e pedras soltas, quase chego a senti-las, chocando-se com a nossa casa andante, desabando paredão abaixo. Me apavoro, procuro olhar ao longe, enxergar algo que fixe minha atenção, não suporto sentir aquele paredão imenso ao meu lado. Também não gosto de olhar para baixo, na pirambeira. Lá no vale vejo pequenas casas que não tenho noção de como se faz para chegar lá.

Por um momento tenho a sensação de que a única coisa que consegue descer até aquelas casinhas são as pedras soltas e a lama produzida pela chuva. Não trafegamos com chuva, se ocorre, paramos na beira da estrada, em algum posto de combustível ou pátio, para esperar a chuva passar. Às vezes temos que ficar por dias nesses locais. Mas na serra, onde estão esses pontos? Não há! É inevitável, é preciso vencer

o percurso, mesmo sob chuva. São comuns placas do tipo “último ponto de parada antes da serra”. Minha aflição começa ao ver essas placas. Temos que seguir, é preciso passar os paredões e as pirambeiras. Em alguns há lama na estrada, em outros, pequenas pedras espalhadas indicando que as encostas não estão firmes por ali. Não há como parar e é perigoso seguir, vivemos o dilema, precisamos ir adiante. Às vezes faltam poucos quilômetros até chegarmos à planície, mas o cenário torna o trecho interminável, longo demais se considerada a minha aflição. Seguimos adiante, meu marido fixado na estrada, quieto, certamente fazendo suas orações em pensamento. Eu, com a encosta ao meu lado, me acompanhando por um bom tempo, apavorante! É preciso suportá-la, é preciso vencê-la. A encosta é soberana, nem liga para o meu pavor. E a chuva não para…

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Comentados 24

  1. GILBERTO JOAQUIM PAIXAO disse:
    9 meses atrás

    Apesar de todos estes inconvenientes, gosto muito de estar na estrada, viajando conhecendo lugares e pessoas….vem junto conosco…..

    Responder
    • MARIA ELIDA MACHADO disse:
      9 meses atrás

      São as estradas simplesmente…nosso jardim fica perigoso às vezes!

      Responder
  2. Laura Lisboa de Magalhães Cantuária disse:
    9 meses atrás

    É essa sensação mesmo! Medo misturado com a visão de paisagens exuberantes, a mesma pergunta sobre as casas lá em baixo ou sobre as encostas… como tiveram a ideia de se fixar ali?
    Estradas…viciantes, um prazer em perigoso desafio.

    Responder
    • MARIA ELIDA MACHADO disse:
      9 meses atrás

      É isso, querida nômade! Um perigoso desafio!

      Responder
  3. José Claudio dos Santos Araujo disse:
    9 meses atrás

    Que medo! Senti aqui!

    Responder
    • MARIA ELIDA MACHADO disse:
      9 meses atrás

      Objetivo atingido! Obrigada

      Responder
  4. Luciano Machado disse:
    9 meses atrás

    É nossa vida também existe muitas curvas , só temos que ser preparados para enfrentar!

    Responder
    • MARIA ELIDA MACHADO disse:
      9 meses atrás

      E encostas e pirambeiras também! Obrigada pelo comentário!

      Responder
  5. Rosa Souza disse:
    9 meses atrás

    Querida, realmente as encostas, os precipícios são assustadores. Medo dessas situações que para nós parecem extremas, quem nunca?
    Ah!! A curiosidade sobre como aquelas pessoas vivem nas casas lá embaixo e lá longe, é grande. Como de deslocam ? Com que frequência vão a cidade para fazer compras, cuidar da saúde, estudar…
    A vida na estrada é de muitas emoções, sensações diversas e enriquecedora. Boas estradas para você e Gilberto.

    Responder
    • MARIA ELIDA MACHADO disse:
      9 meses atrás

      Obrigada Rosa! E vamos seguir pertinho aqui no Exempplar!

      Responder
  6. Claire Abreu disse:
    9 meses atrás

    Querida Elida, a estrada é como nossa vida: às vezes tranquila sem curva e com asfalto, e às vezes tortuosas e incertas! Ainda bem que Às vezes nos perdemos e podemos voltar pro caminho certo!!O que me encantada na estrada é a sensação do deslocamento, ESTAR EM MOVIMENTO! Avisa é feita de movimentos. Se não nos mexemos , nosso Corpo e nossa Mente ficam estagnados!!! Avante querida! boa jornada!!!

    Responder
    • MARIA ELIDA MACHADO disse:
      9 meses atrás

      Tua reflexão amplia a crônica! Obrigada!

      Responder
  7. MARIA CAROLINA DA COSTA PINHEIRO disse:
    9 meses atrás

    Minha amiga, você descreve sensações, emoções coloridas, como costumo dizer, que afetam a gente. Já vivi esse “pavor” , e não sou chegada a viagens em serras, porque tenho problemas com altura e se juntar altura e água, nem se fala. São cicatrizes de memórias de infância, quando lembro de subir estradas íngremes com meus pais num Fusca ou num Jeep. Adoravam um serro! Pareciam cabritos, kkk! Além da experiência na década de 70, com a expansão da barragem da Usina de Candiota – RS, tomando conta dos nossos campos, sangas, pequenos rios, prainhas, … Foram pontes caindo, paisagens mudando, estradas e trajetos se modificando. Sim, faz parte da história da geografia do planeta terra. O movimento das águas vão mudando a geografia, e cada vez mais por interferência humana. Assim como na ocupação das florestas, das serras. Amo natureza, mas não gosto de desafiá-la. Admiro muito a coragem de vocês em enfrentar as estradas em serras, e tenho certeza que vale muito a pena. Há inúmeros lugares que adoraria conhecer, mas quando vejo o trajeto das encostas apavorantes, já ponho no fim da lista. Abraço querida! E excelentes viagens!

    Responder
    • MARIA ELIDA MACHADO disse:
      9 meses atrás

      Obrigada Carolina pelo rico comentário! Evitamos as serras íngremes…porém, às vezes, são inevitáveis!

      Responder
  8. Luciano Machado disse:
    9 meses atrás

    A vida também tem muitas curvas.
    E algumas delas me apavora!

    Responder
    • MARIA ELIDA MACHADO disse:
      9 meses atrás

      É preciso seguir em frente!

      Responder
  9. Paulo Ricardo Paes disse:
    9 meses atrás

    Ao nos depararmos com situações como essa, é que temos a noção de que nada somos diante da natureza. Ainda bem que passaram em segurança, onde o medo ajudou a preservá-los.

    Responder
    • MARIA ELIDA MACHADO disse:
      9 meses atrás

      Dessa tenho medo! Da natureza!

      Responder
  10. Eduardo Prates disse:
    9 meses atrás

    Oi! O barato da leitura seja ficção, crônica, romance ou outra forma de expressão é sempre a liberdade que nossa mente libera ao criar uma imagem do texto. Achei a aventura contida nele muito expressiva, mas na realidade o que me passou lendo o texto foi uma espécie de releitura da vida. Fiquei pensando em como o nosso dia a dia é cheio de encostas amendrontadoras e como as estrátégias para vencê-las são importantes. Fico aqui com minha viagem interior e q bom descobrir este canal de escrita criativa. No mais fico aqui aguardando novas palavras. Abraço

    Responder
    • MARIA ELIDA MACHADO disse:
      9 meses atrás

      A escrita provoca! Isso é um grande barato! E sigamos juntos aqui no Exempplar!

      Responder
  11. LUIZ EDUARDO PRATES DA SILVA disse:
    8 meses atrás

    Como sempre, um excelente texto, Elida. Dás vida à nossa imaginação e a nossas emoções. Mas sabe o que lembrei quando comecei a ler? Uma poesia que li nos meus tempos de ginásio (kkkk) (faz tempo!). A Lágrima, de Guerra Junqueiro. Procura na internet. Parabéns!

    Responder
    • MARIA ELIDA MACHADO disse:
      8 meses atrás

      Que bom que gostaste ! Fiquei curiosa. Vou ler. Obrigada

      Responder
  12. zaira cantarelli disse:
    8 meses atrás

    A vida sem curvas, sem pirambeiras, rampas, declives, precipícios, subidas e descidas é monótona, sem descobertas, mas tb sem aprendizado.

    Responder
    • MARIA ELIDA MACHADO disse:
      8 meses atrás

      Outra boa analogia com a vida. Obrigada.

      Responder

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