O nosso brasilzão de meu deus é muito grande, diverso na sua cultura, nas suas belezas, na sua história e na sua geografia. As estradas por onde passamos, que são parte do nosso jardim, são muito distintas umas das outras. Em um dia andamos por largas e extensas rodovias, tráfego intenso e logo, no outro dia, já estamos em uma estrada vicinal, estreita, muitas vezes sem acostamento ou sinalização. Às vezes planas, às vezes uma serra em caracol. Essas, especialmente me apavoram. Elas estão em todos os estados do Brasil. Em alguns lugares, a serra é isolada, é preciso cruzar uma montanha vez ou outra. Em outros locais, a serra é uma constante, estamos subindo ou descendo o tempo todo, hora após hora. Nesses locais, olho ao redor e vejo, de um lado, um paredão e, do outro, uma pirambeira. Do lado do paredão fico mais tranquila quando vejo muitas árvores, entrelaçadas, com enormes raízes, formando um verde espesso. Parece que essa encosta está mais firme. Logo adiante, a encosta está desnuda, vejo terra e pedras soltas, quase chego a senti-las, chocando-se com a nossa casa andante, desabando paredão abaixo. Me apavoro, procuro olhar ao longe, enxergar algo que fixe minha atenção, não suporto sentir aquele paredão imenso ao meu lado. Também não gosto de olhar para baixo, na pirambeira. Lá no vale vejo pequenas casas que não tenho noção de como se faz para chegar lá.

Por um momento tenho a sensação de que a única coisa que consegue descer até aquelas casinhas são as pedras soltas e a lama produzida pela chuva. Não trafegamos com chuva, se ocorre, paramos na beira da estrada, em algum posto de combustível ou pátio, para esperar a chuva passar. Às vezes temos que ficar por dias nesses locais. Mas na serra, onde estão esses pontos? Não há! É inevitável, é preciso vencer
o percurso, mesmo sob chuva. São comuns placas do tipo “último ponto de parada antes da serra”. Minha aflição começa ao ver essas placas. Temos que seguir, é preciso passar os paredões e as pirambeiras. Em alguns há lama na estrada, em outros, pequenas pedras espalhadas indicando que as encostas não estão firmes por ali. Não há como parar e é perigoso seguir, vivemos o dilema, precisamos ir adiante. Às vezes faltam poucos quilômetros até chegarmos à planície, mas o cenário torna o trecho interminável, longo demais se considerada a minha aflição. Seguimos adiante, meu marido fixado na estrada, quieto, certamente fazendo suas orações em pensamento. Eu, com a encosta ao meu lado, me acompanhando por um bom tempo, apavorante! É preciso suportá-la, é preciso vencê-la. A encosta é soberana, nem liga para o meu pavor. E a chuva não para…











