Olho em volta e vejo muitas pessoas idosas que optaram pela vida nômade. É comum vizinharmos com idosos que, como nós, por motivos variados, passaram a viver na estrada. Noto que as pessoas mais velhas têm em comum o fato de não se desfazerem de suas casas fixas, o que é mais frequente entre os mais jovens, que optam por comprar uma casinha sobre rodas em vez de residências tradicionais. Por que as pessoas idosas mantêm suas casas fixas? Como nós, saem por aí, mas mantém seu porto seguro, a casa fincada ao chão. Arrisco responder à minha própria pergunta. Eu, mais do que o meu marido, tenho medo de intercorrências de saúde, acidentes, afinal, somos idosos.

Costumo dizer que a pessoa idosa tem que tomar muito cuidado para não cair, se cair, trinca, e se trincar é difícil de colar. Imaginem um nômade que precise de algo, tipo cirurgia de quadril, o que é muito comum na nossa idade. É necessário ficar acamado, espaço para reabilitação como andar, fazer fisioterapia, exercícios. Definitivamente seria impossível fazer isso nas nossas casinhas sobre rodas. E as dificuldades estando doentes? Como tomar banho, fazer xixi e cocô, com restrição de movimentos, nos nossos banheiros minúsculos? Acho que a necessidade de espaço e conforto na ocorrência de algum problema de saúde é o principal motivo para a gente manter a “casa grande” (é como chamamos a nossa casa fixa, o nosso porto seguro).

Creio também que a possibilidade de manter um espaço de encontro de toda a família, é outro motivo. Pelo menos no nosso caso, a nossa casa grande sempre foi o local de encontros, reuniões de família, juntando os meus, os teus e todos os agregados. Talvez esse cenário seja só lembrança de afetos antigos, pois nós, idosos, sabemos que somos visitados cada vez menos por familiares. Todos têm muitos compromissos, outros interesses, o que faz as reuniões familiares ficarem cada vez mais raras. Mas eu insisto. Faço questão de fazer junção na casa grande mesmo que, atualmente, isso ocorra muito de vez em quando. Quando conversamos sobre isso com a vizinhança da estrada, também idosa, as memórias da casa grande como sede de encontros, é uma constante. Talvez o que sentimos também, mas não falamos, é que precisamos ter um lugar para descansar, para voltar a morar depois do período nômade. Temos noção de que o nosso tempo cronológico para a estrada não é muito longo. As perdas de visão, de memória, de reflexos, são percebidas a cada dia, e estes eventos, próprios do envelhecimento, nos leva, mesmo que inconscientemente, a manter a nossa casa grande, firme, confortável, para nos abrigar quando o corpo não suportar mais a vida viajante. Quando isso ocorrerá? Quando a casa grande será novamente o nosso lugar? Não sabemos. Ninguém sabe. Não pensamos nisso, só temos a certeza de que a nossa casa grande está lá, ela resiste, nos espera cheia de conforto para o nosso descanso. Por ora, seguimos…A estrada hoje é a nossa casa!















Todos os relatos da Élida são verdadeiros, mas não concordo com muitos, se viver pensando no que pode acontecer, não saio de casa.
Precaução é importante mas…..
Reflexões intermináveis…
Gosto de viajar mas tb gosto de voltar pra casa, com meus confortos, minhas lembranças, minha rotina. É meu porto seguro para as inconveniências da velhice.
Encontrar minha casa grande de vez em quando é muito bom!
É muito bom voltarmos para casa após uma longa viagem e encontrar os vizinhos e amigos.
Sim! E sigamos juntos aqui no Exempplar, vizinho!
Pra mim, manter uma casa fixa não é falta de coragem, é cuidado. A estrada é liberdade, é escolha, é alegria. Mas saber que existe um lugar pra voltar traz tranquilidade. Com o tempo, o corpo muda, os limites aparecem e os imprevistos acontecem. Ter a casa grande ali, firme, dá segurança pra seguir viajando sem medo. Ela não nos prende, ela ampara. É isso que torna a vida na estrada possível: saber que sempre existe um porto seguro esperando a nossa volta.
É isso! Super concordo! Lindo comentário!
Não vivo sem minha “casa grande”, é meu lugar de cuidado, segurança, paz. Amo viajar, mas estar em casa é bom demais!
Tenho essa sensação nas minhas duas casas…na casa grande e na casinha!
Admiro a vida que vocês levam na casinha de viagem, estão vivendo uma grande aventura mas sim, a casa grande é o refúgio para voltar, para aconchegar com seus afetos , seus filhos e familiares, amigos e vizinhos .
É bom ter para onde voltar !
A casa grande resiste !
Minha casa grande me espera! Isso me conforta!
Relato profundo e verdadeiro!
Obrigada querida amiga!
Querida Maria Élida compreendo perfeitamente as suas reflexões. O ser humanos têm dentre as suas necessidades básicas:abrigo e segurança. Ter consciência de que um dia, no futuro distante ou próximo pode necessitar do conforto que a casa fixa ou casa grande oferece e principalmente que a casa fixa ou casa grande está lá à espera aquece o coração.
Sim! É isso! Obrigada pelo comentário!
Concordo com o Gil. Vida longa e morte súbida! O nômade é um destemido por natureza, liberto já dos “medos mundanos”. Trazendo para o nosso cancioneiro, Mano Lima escreveu: “sou igual a “Sariema” onde anoitece me “impulero”. Acho que as lembranças e afetos são os pilares da casa grande. Que bom que a casinha pode levá-los aos netos n’outras cidades para que a ludicidade seja um norte de Amor e contemplação! Vocês são incríveis! Bjo!
Obrigada querido! Nós vamos indo…Sempre indo…
Às vezes destemidos, as vezes nem tanto!
Obrigada por estar conosco aqui no Exempplar.
Parabéns adorei a reflexão.
Acredito que a vida nômade seja boa por alguns dias, mas adoro sempre voltar para meu porto seguro minha casa grande, minha cama extraking e minha banheira de hidromassagem….
Existem coisas que só a casa GRANDE pode nos proporcionar!
Abraços
As nossas casas.. a casa grande e a casinha..ambas com seus encantos!
Nossa casa está onde está o coração. Para qualquer lugar que seguirmos sempre levamos conosco nosso lar dentro do nosso coração.
Minha mulher e eu viajamos bastante. Depois que nossa filha casou e foi morar na Espanha nossa casa virou casarão. Mas aqui estão nossos livros, nossos discos , nosso jardim, nossa cachorra Nina Simone, nosso tempo.
Parabéns pela crônica Maria Élida
Obrigada querido! Que bom te ter pertinho aqui no Exempplar!
Que bom ter a casa grande repleta de afetos, lembranças, planos…vida…Bjos
Nossas casas se complementam!
Desde as épocas mais remotas, ouvimos falar dos homens das cavernas, os animais vivem abrigados em tocas ou outros tipos de morada , nem todas as pessoas têm condições de manter uma “casinha sobre rodas, um trailer e muitas nem um veículo para se deslocarem por problemas financeiros ou de saúde. Portanto acredito que o normal é termos uma casa fixa onde podemos receber um filho ou parente que queiram nos visitar e termos nosso travesseiro para dormirmos em segurança e tranquilidade. O resto é jogada de marketing.
Temos consciência do privilégio que temos em podermos viver na estrada e ainda termos a casa grande para voltar! Já passamos da idade de sermos levados por marketing…
De alguma forma nosso corpo é nossa primeira casa; local que cuidamos e abastecemos visando nossa melhor viagem : a vida.
Boa viagem a todas as pessoas que , como eu, somos abastecidos de alegria e esperança , com Maria Elisa e seu marido nestes Natais.
Obrigada pelo comentário que amplia a crônica! E continue conosco aqui no Exempplar .
Realmente a casa “grande” é nosso Porto Seguro, mas sem deixarmos de aproveitar a vida de outras formas como vocês fazem e admiro muito vocês por isso. Continuem nessa vida nômade sempre que quiserem e puderem, e nós como vizinhos na casa grande estaremos aqui para nos ajudarmos sempre e ouvirmos as estórias dessas jornadas…
Obrigada querida vizinha por fazer parte dos afetos da nossa casa grande!
Realmente a casa da gente é a melhor sempre.
Cada uma das minhas casas me conforta do seu jeito!
Com certeza, podemos seguir na estrada,mas tem um momento que a casa grande se torna nosso porto seguro e quando chegar o tempo de lançar âncora definitiva, podemos viver das lembranças de uma vida maravilhosa de nômades.
É isso! Gostei da âncora…por enquanto nem sabemos onde ela está…kkk