Muito interessante ao morar em cidades diferentes a cada mês ou quinzena, é observar as características de cada cidade, a cultura. Nas cidades pequenas é muito fácil perceber o que é mais marcante na vida local. A base econômica já é percebida nas rodovias, nos arredores, ao chegar. Se a cidade é agrícola, da grande agricultura ou de pequenos produtores rurais. Se a cidade é industrial, passam pela nossa janela as grandes estruturas de produção e logística. Se prestarmos atenção nas propagandas e outdoors na entrada das cidades, já teremos ideia do que encontraremos adiante. Sempre me chamam a atenção os aspectos culturais das localidades. As feiras, as manifestações artísticas, a música, os museus, dão ideia de como se desenvolve a cidade. Nas pobres ou pouco desenvolvidas, certamente, não encontraremos cultura ou arte. Nas metrópoles é mais difícil perceber o modo de vida da população. É um emaranhado de gente circulando pra lá e pra cá, gente de todo tipo, vindos de todo lugar, sendo comum que o modo de vida em um bairro não tenha nada a ver com o outro. Em Porto Alegre, a cidade que eu escolhi para morar e para onde volto de vez em quando, há um modo de vida, ou menos, um hábito, que está caracterizando cada vez mais a cidade. Porto Alegre tem muitos parques, praças, áreas arborizadas, mas a maior e, arrisco dizer, a mais frequentada área de lazer, é a orla do rio Guaíba, que foi revitalizada em meio a discussões sobre o impacto ambiental provocado, mas isso é outra história.

A linda orla do Guaíba tem vários quilômetros, circunda a cidade, indo do centro à zona sul. Todos os dias há uma multidão correndo por lá, desde muito cedo. Aos finais de semana e feriados, a orla se movimenta muito mais e é pintada de todas as cores. Há os corredores contumazes, gente que treina para rústicas e maratonas, gente que corre como rotina de exercícios, lado a lado com os que têm muita intenção e nenhum técnica. Estão lá jovens, pessoas idosas, obesos, bariátricos, cada um com seus objetivos, cada um curtindo seu prazer ou sua necessidade de correr. Tem também os fortões e as gostosas exibindo seus corpos esculturais. Acho que estes não encontram muita plateia para seus desfiles, os corredores estão, cada um, imersos em suas metas, a maioria com fones de ouvido, sendo impulsionados pela endorfina da corrida que invade seus corpos e suas mentes. Acho interessante o aparato técnico e comercial que envolve o mundo das corridas. Por toda a orla a moda pulsa, as roupas, os tênis, os relógios mais tecnológicos, os assessórios mais modernos estão por lá. Observo da minha janela e vejo tanta parafernália, muitas não sei o que é e para o que serve.

E tem também os grupos organizados de corrida, com seus gazebos montados ao longo da orla, dando suporte as suas equipes, água, gelo, colchonete, massagem, atendimento profissional e sei lá mais o quê. O cenário é cheio de vida e curiosidades. Demorei para entender o porquê de tantos fotógrafos por todo o trajeto, quando não há competição ou qualquer outro evento. Aprendi que existem plataformas que comercializam fotos de corredores pelo mundo todo. É possível descobrir nessas plataformas lindas fotos, artísticas, de corredores, a partir de reconhecimento facial. Nem me arrisco a comentar sobre isso, é muita tecnologia, sou muito analógica, só sei observar e disso entendo. Encho os olhos com o movimento, as performances, as roupas coloridas, os corpos suados, o Guaíba fazendo pose para fotos com a cidade ao fundo. Tudo ganha mais vida com os corredores de Porto Alegre, o rio, a calçada, a pista, o parque, o estádio Beira Rio, os shoppings do caminho, as feiras, os quiosques. À tardinha o sol se deita lindo no rio e os corredores ganham a companhia das crianças em suas bikes, do pessoal do skate e dos patins, dos caminhantes lentos, dos corredores eventuais. É a Porto Alegre das corridas, é a cidade da maratona mais longeva do Brasil, é a cidade do meu afeto. Está faltando essa informação para quem chega a Porto Alegre e não conhece a cidade. Acho que vou sugerir uma placa para a entrada da cidade: Porto Alegre, a cidade do pessoal “do corre”.















Belíssima crônica, retrata bem a linda Porto Alegre…